A cena se repete com a pontualidade de um relógio suíço estragado. Tiros ouvidos nas imediações da Casa Branca, jornalistas correndo, perímetro fechado, helicópteros riscando o céu de Washington, e o porta voz de plantão pedindo calma ao rebanho. O complexo presidencial mais blindado da história, cercado por agências cujas siglas mal cabem num organograma, viu de novo o cidadão comum se atirar ao chão enquanto o Serviço Secreto fingia surpresa. A pergunta que ninguém faz na coletiva é a única que importa: quem paga essa fortaleza e o que, exatamente, ela tem protegido?
Os números são obscenos e o cidadão americano os conhece de cor, embora finja não conhecer. Bilhões de dólares por ano em segurança presidencial, agentes infiltrados, drones, contraespionagem, sistemas antiaéreos discretamente instalados nos telhados vizinhos, e ainda assim o som de disparos atravessa a Pennsylvania Avenue como se fosse vizinho de quintal. A conta vem do imposto de renda do garçom de Ohio, do mecânico de Detroit, do agricultor de Iowa, gente que jamais pisará na sala oval mas que sustenta o palácio com a mesma resignação medieval com que o servo sustentava o castelo. Pagar pela própria submissão sempre foi o golpe de mestre dos que governam.
Há aqui uma ironia que merece ser saboreada devagar. O Estado que se vende como provedor de segurança é, por definição, o único agente que pode legalmente atirar primeiro e perguntar depois. E quando esse mesmo Estado se vê incapaz de garantir silêncio diante da própria fachada, descobrimos que o monopólio da violência não significa monopólio da paz, apenas monopólio da cobrança. Roma cobrava tributo para defender a fronteira e acabou sitiada dentro das próprias muralhas. Bizâncio construiu três anéis de defesa e caiu pelo portão que esqueceram de trancar. Toda capital imperial termina assim: blindada por fora, oca por dentro.
Repare na coreografia que se seguirá nos próximos dias. Pedidos de mais orçamento para o aparato de segurança, novas leis restringindo o porte de armas do cidadão comum, câmeras adicionais, sensores adicionais, contratos adicionais com as mesmas empreiteiras de sempre, aquelas que financiam campanhas dos dois lados do espectro porque descobriram cedo que democracia, quando bem administrada, é só uma forma elegante de revezamento entre fornecedores. Cada tiro perto da Casa Branca rende mais verba para quem vende fechadura, e cada verba nova vira menos liberdade para quem mora longe dali. O incidente é o pretexto, o orçamento é a finalidade.
O cidadão comum, esse personagem trágico da peça, é convidado a interpretar o episódio como prova de que precisa de mais Estado, jamais como prova de que o Estado falhou. Se a polícia chega tarde, é porque está mal equipada. Se o exército não vence, é porque está mal financiado. Se o presidente é alvo de tiros na própria porta, é porque o aparato de inteligência precisa de mais poderes. A lógica do confisco perpétuo é circular e o silogismo é grosseiro: o monopólio falha, logo o monopólio merece mais. Premissa torta, conclusão torta, conta paga pelo de sempre.
Enquanto isso, o sujeito que mora num subúrbio de Baltimore, que ouve tiros toda madrugada e não tem perímetro isolado, não tem helicóptero, não tem agente federal correndo para protegê lo, continua sendo informado de que armar se é privilégio de bárbaros e que confiar no Estado é dever de civilizado. A mesma estrutura que cobra trilhões para blindar uma casa branca em Washington considera impertinente o pedreiro que quer um revólver para proteger a casa de tijolo em qualquer outro lugar do país. Eis o arranjo na sua forma mais nua: a segurança é mercadoria de luxo, o medo é distribuído gratuitamente, e a conta vem mensal, sem direito a recusa.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.