Quatro pessoas morreram num fim de semana em São Paulo porque uma caneta de injeção subcutânea que custa entre três e seis mil reais virou o novo alvo preferencial do crime organizado. Não ouro, não joias, não eletrônicos de última geração. Uma caneta. Uma seringa de polímero com algumas doses de semaglutida dentro. É isto que a situação chegou: quadrilhas mobilizadas, forças de segurança em alerta máximo, e um policial morto, tudo por conta de um medicamento que só é tão valioso porque o Estado brasileiro nunca foi capaz de fabricar, subsidiar ou distribuir com competência nenhum produto farmacêutico de alta tecnologia em escala suficiente para atender a população que ele próprio taxou até a medula durante décadas.
Antes de qualquer análise de segurança pública, é preciso fazer a pergunta que ninguém faz nos jornais grandes: por que uma injeção semanal para controle de peso custa o equivalente a três salários mínimos no Brasil? A resposta não tem nada de misterioso para quem conhece o funcionamento real das instituições. Importação tributada em cima de tributada, cadeia logística encarecida por regulação kafkiana, câmbio pressionado por uma política fiscal que gasta como se não houvesse amanhã e endivida como se o amanhã fosse eterno. O medicamento não é caro porque é inovador. Ele é caro porque cada mão do Estado que toca nele antes de chegar ao balcão da farmácia deixa um pedaço do preço pra trás, como pedágio num sistema rodoviário de péssima qualidade que te cobra pelo buraco que te destruiu o carro.
E então aparece a quadrilha. O crime organizado, ao contrário do que dizem os ingênuos da criminologia de sofá universitário, é extremamente racional na escolha dos alvos. Não há histeria, não há impulso, há cálculo. Se uma caneta emagrecedora tem alto valor de revenda, baixo volume físico, demanda crescente e clientela desesperada disposta a pagar qualquer preço no mercado paralelo, ela se torna, do ponto de vista estritamente lógico, o produto perfeito para o roubo. O crime organizado identifica as distorções criadas pelo Estado e as explora com uma eficiência que envergonharia muita empresa listada em bolsa. A quadrilha é, nesse sentido macabro, um empreendedor que opera nas frestas que o monopólio estatal deixa abertas, e há muito poucas frestas maiores do que a saúde pública brasileira.
O policial que morreu tinha um nome, uma família, uma vida inteira que não se reduz à farda. Morreu fazendo o que o Estado pediu que fizesse, que é conter, com o próprio corpo, as consequências das falhas que o mesmo Estado acumula há décadas na educação, no planejamento urbano, na política de drogas, na tributação opressiva e na regulação sufocante. Há algo de profundamente desonesto na comoção oficial que viria a seguir, nas notas de pesar das secretarias, nos discursos sobre valorização das forças de segurança, quando essas mesmas forças são enviadas repetidamente para tapar com a carne e o sangue dos seus membros os buracos que a gestão pública cava e nunca fecha. Chamar isso de tragédia sem chamar pelo nome a causa é hipocrisia com plateia garantida.
São Paulo tem mais câmeras de vigilância por quilômetro quadrado do que diversas capitais europeias. Tem tecnologia de reconhecimento facial implantada há anos. Tem orçamento de segurança que cresceu em termos nominais a cada ciclo de governo. E ainda assim, num fim de semana, uma série coordenada de assaltos a farmácias paralisa as forças policiais e termina com quatro mortos. O problema não é falta de recurso, é falta de estrutura lógica, de hierarquia funcional de prioridades e de liberdade para que a iniciativa privada e os cidadãos organizem sua própria proteção sem depender exclusivamente de um aparato estatal que, na melhor das hipóteses, chega depois. Quando chega. A história de todas as sociedades que tentaram centralizar o monopólio da segurança sem nenhum contrapeso privado é sempre a mesma: chegada tardia, conta cara, enterro com discurso.
O que aconteceu no fim de semana em São Paulo não é um crime. É um sintoma. O crime, o verdadeiro, o estrutural, é a arquitetura de um sistema que encarece artificialmente produtos de saúde essenciais, que falha na distribuição pública e então deixa a população reféns de preços proibitivos no mercado privado, que proíbe formas eficazes de autodefesa e então não consegue garantir a segurança que prometeu em troca dessa proibição, e que depois transforma o policial morto em estatística de serviço e os três assaltantes em números de ocorrência, enquanto o ministério competente elabora uma nota de repúdio e a secretaria de saúde anuncia uma nova parceria público-privada para ampliar o acesso às canetas emagrecedoras que, por coincidência, continuarão custando três salários mínimos. O círculo se fecha sobre si mesmo com a elegância de uma armadilha bem construída.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.