Doze pessoas baleadas no Old West End Festival, em Toledo, Ohio, na tarde de sábado, dia 6. Duas em estado grave. Famílias que saíram de casa para comer cachorro-quente, ouvir uma banda de garagem e olhar quadros pendurados em cavaletes voltaram carregando crianças no colo enquanto tentavam não pisar no sangue alheio. A cena tem a obscenidade típica dos massacres modernos, aquela mistura de banalidade dominical e horror absoluto que já virou paisagem natural do século. E, como sempre, o coro dos especialistas se prepara para repetir o mantra de costume, como se rezar o terço fosse uma política pública.
Convém parar um segundo e fazer a pergunta que ninguém quer ouvir. Quem cobra para garantir a segurança naquela praça? O município. Quem cobra imposto sobre cada hambúrguer vendido na barraca, sobre cada metro quadrado da casa do morador, sobre cada centavo do salário do operário que levou a filha ao festival? O mesmo município, somado ao estado, somado à federação. E o que esse condomínio compulsório entregou em troca, na tarde de sábado, para os doze que agora contam balas dentro do próprio corpo? Nada. Rigorosamente nada. Se um shopping privado tivesse esse desempenho na portaria, fecharia na segunda. O Estado, não. O Estado emite nota e segue cobrando.
O truque é antigo e funciona porque a plateia é distraída. Vende-se a ideia de que sem o leviatã haveria caos, ao mesmo tempo em que o caos acontece justamente sob a vigilância do leviatã, sob suas câmeras, sob suas viaturas, sob seus protocolos espessos como catálogo telefônico. É como contratar um guarda-noturno que dorme no posto, acorda só para receber a gorjeta e ainda culpa o morador por ter deixado o portão entreaberto. Na Roma decadente, os pretorianos cobravam pelo serviço de proteger o imperador e, quando convinha, vendiam o trono para o maior lance. Mudou o figurino, não mudou o esquema.
A reação previsível virá em duas embalagens, ambas convenientes para quem governa. A primeira pedirá mais dinheiro para a polícia que falhou, porque na lógica burocrática o fracasso é sempre prova de subfinanciamento, nunca de incompetência. A segunda pedirá leis novas, mais restrições, mais cadastros, mais controle sobre o cidadão pacífico que não atirou em ninguém, jamais atirou em ninguém e provavelmente jamais atirará. O efeito prático será o de sempre. O criminoso seguirá armado, porque criminoso não preenche formulário. O pai de família ficará desarmado, porque pai de família preenche. E na próxima feira de artesanato, o saldo será o mesmo, com nomes diferentes na lista dos feridos.
Há uma honestidade brutal que poucos suportam encarar. A segurança não é um direito que cai do céu por decreto, é um serviço, e como todo serviço tem custo, fornecedor e qualidade aferível. Quando o fornecedor é monopolista e o cliente é obrigado a pagar sob pena de cadeia, não existe melhoria possível, existe apenas o ritual anual do orçamento aumentado e do resultado piorado. A festa em Toledo não foi tragédia inexplicável, foi consequência lógica de um arranjo em que ninguém responde por nada e todos cobram por tudo. As coisas são o que são, não o que o comunicado oficial diz que são.
No fim, sobra a pergunta simples, aquela que o cidadão deveria fazer toda vez que assina o carnê do imposto. Se eu pago para ter proteção e não tenho proteção, por que sigo pagando? Se o sujeito ao meu lado pode ser baleado numa tarde de sábado entre uma barraca de bolo e uma roda de viola, qual exatamente é o produto que estou financiando com metade do que ganho? A resposta incomoda porque é óbvia. Você está pagando pela ilusão de que alguém cuida de você. E a ilusão, como todo produto de baixa qualidade vendido a preço alto, cedo ou tarde mostra a costura.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.