O fato é singelo e ao mesmo tempo revelador: passados mais de trinta anos desde a criação do troféu, apenas oito goleiros foram ungidos como os melhores do mundo numa Copa, e cada um deles carrega no peito não apenas a medalha, mas o selo de aprovação de uma entidade suíça que, sob pretexto de organizar futebol, transformou o jogo mais popular do planeta numa máquina de licenciamentos, direitos televisivos e tributos disfarçados de patrocínio. O prêmio nasceu em 1994, ano em que a tal entidade descobriu que vender prestígio individual era tão lucrativo quanto vender o coletivo, e tratou de fabricar uma honraria a mais para alimentar a liturgia.
Convém recordar a galeria dos escolhidos sem reverência indevida, porque o mérito esportivo existe, mas existe também a curadoria que decide quem entra na fotografia oficial da história. O belga Preud'homme abriu a galeria nos Estados Unidos, seguido pelo francês Barthez em casa, em 1998. Veio o alemão Kahn em 2002, num torneio que ficou marcado por arbitragens que até hoje os asiáticos preferem não comentar. Buffon brilhou em 2006, Casillas em 2010, Neuer em 2014, Courtois em 2018 e o argentino Martínez em 2022. Oito homens, oito narrativas, e por trás de todas elas a mesma chancela.
Pergunta inevitável: quem paga a festa e quem embolsa o lucro? Os ingressos saem caríssimos do bolso de torcedores que economizaram durante anos, os impostos saem do contribuinte de cada país-sede que ergueu estádios faraônicos para depois ver elefantes brancos enferrujarem sob o sol, e o caixa engorda nos cofres de uma confederação privada que goza de imunidades fiscais dignas de embaixada. Os jogadores recebem prêmio, é verdade, mas a fatia maior fica com quem controla o calendário, os direitos, os patrocínios e, naturalmente, a régua que define quem merece luva dourada e quem fica com luva de pano.
Há uma certa beleza melancólica na constatação de que o futebol, que começou nos campos varzeanos como brincadeira de operário no domingo, virou indústria global cuja governança opera com a transparência de um confessionário medieval. Toda vez que um goleiro ergue o troféu, há contratos sendo assinados em escritórios de Zurique, há lobistas conversando com governos, há ditadores comprando sede de Copa com petrodólares, e há uma legião de comentaristas tratando o espetáculo como se fosse genuinamente meritocrático. A premiação individual cumpre função de relicário: distrai a plateia enquanto a contabilidade corre por baixo do tapete verde.
Nada disto diminui a competência dos premiados, e seria desonestidade fingir que defender pênalti em final de Copa é tarefa qualquer. O ponto é outro, e mais incômodo: a mesma estrutura que coroa o goleiro também escolhe o árbitro, define o regulamento, vende o anúncio do intervalo e processa quem ousar transmitir a partida sem pagar pedágio. O troféu é real, o talento é real, mas o moldureiro do quadro inteiro cobra comissão de tudo que se move dentro dele, e ninguém votou para que fosse assim. Ninguém nunca vota nessas coisas; o monopólio se autoinstala, depois cobra fidelidade.
Quando, daqui a alguns anos, o nono nome for inscrito nessa lista curta, valerá a pena lembrar que troféu de papelão folheado a dourado não muda o fato essencial: o futebol pertence a quem joga e a quem assiste, mas o lucro pertence a quem nunca pisou em campo. A luva é de ouro, sim, e o ouro tem dono. Convém sempre perguntar a quem ele responde.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.