Tommy Hilfiger alugou o Plaza inteiro. Não uma sala, não o salão de baile, o hotel inteiro, para desfilar sua nova coleção na Semana de Moda de Nova York num festival de cores que a imprensa de moda já chamou de retorno triunfal. Enquanto o cenário se monta com centenas de trabalhadores fechando a Quinta Avenida, o americano médio está no supermercado calculando se leva o pacote de café ou o de fralda. Coincidência simpática? Não. É a fotografia perfeita do momento em que o capitalismo de vitrine se separou definitivamente do capitalismo de produção.

Olha, ninguém em sã consciência é contra desfile de moda, contra beleza, contra festa. O problema não é o Plaza tomado. O problema é entender por que uma marca que vende camisa polo para classe média precisa de um cenário de bilhões para vender camisa polo para classe média. A resposta está na tabela de custo de capital do último quinquênio. Quando o dinheiro é impresso na proporção que foi impresso desde 2020, ele precisa ir para algum lugar, e esse lugar quase nunca é a fábrica em Ohio; é o marketing em Manhattan. O que se vê é a passarela iluminada; o que não se vê é a fila de fornecedores pequenos que fecharam porque não sobrou crédito para eles.

E aí entra a mecânica clássica do compadrio, aquela em que o executivo da marca, o banqueiro que financia o evento, o incorporador que administra o hotel e o burocrata municipal que aprova o fechamento da avenida jantam juntos e se convencem de que estão movimentando a economia. Movimentar a economia é curioso; parece descrição de energia cinética. Um pedreiro que constrói uma casa movimenta a economia; um evento de moda que consome quatro dias de logística pública e privada para produzir vinte minutos de imagem para o Instagram redistribui a economia, tira de quem produz para dar de comer a quem performa. E performa em nome de uma causa, sempre. As cores, dessa vez.

Quer dizer, o retorno cheio de cores não é sobre estética. É sobre alinhamento. A grife precisa sinalizar tribo para o fundo de investimento que carrega suas ações, e o fundo de investimento precisa sinalizar tribo para o regulador que decide se deixa passar a próxima fusão. Ninguém decide isso conscientemente numa reunião; a coisa se organiza sozinha, como um cardume que muda de direção sem que nenhum peixe tenha dado a ordem. O problema é que o cardume está nadando em direção contrária à do consumidor, que está cansado, endividado no cartão a vinte e nove por cento ao ano, e que já não acredita que camisa de duzentos dólares o transforma em alguém melhor.

Me diz uma coisa: quando foi a última vez que uma marca de roupa fez notícia por lançar um tecido novo, uma técnica de costura, uma inovação de matéria-prima? Não faz. Faz notícia por alugar um hotel, por convidar uma celebridade, por pintar um arco-íris. É a definição exata de uma indústria que esgotou seu conteúdo produtivo e sobrevive de espetáculo, o que na história econômica sempre foi o último capítulo antes do capítulo seguinte, aquele em que o consumidor descobre que existe uma marca pequena, num galpão em Vermont, que costura melhor por um terço do preço, e a coroa de plumas cai sozinha da cabeça do rei.

O Plaza vai reabrir na segunda-feira, os operários vão desmontar o cenário, o Instagram vai esquecer em quarenta e oito horas, e o preço da camisa vai subir mais oito por cento no próximo trimestre para pagar a farra. A conta, como sempre, chega para quem não foi à festa. E o pior é que ainda vão dizer que foi um sucesso.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.