A TotalEnergies assinou um acordo que destrava seu retorno à Venezuela, e o comunicado saiu com aquela prosa asséptica que multinacional usa quando está fazendo algo constrangedor. Traduzindo do corporativês: a empresa está pronta para voltar a operar em parceria com um regime que quebrou o próprio país, expulsou seis milhões de habitantes e transformou a maior reserva de petróleo do planeta num pântano de miséria administrada. Mas o barril subiu, a licença apareceu, e de repente a moralidade europeia descobriu que talvez Caracas mereça uma segunda chance. Que coincidência elegante.
Vale olhar o que não se vê nesse aperto de mão. O que se vê é uma petrolífera francesa dizendo que vai gerar valor, energia, empregos, cooperação técnica, essas palavras bonitas que enchem apresentação de PowerPoint. O que não se vê é o mecanismo real: a estatal venezuelana, sucateada por duas décadas de gestão ideológica, precisa desesperadamente de capital e tecnologia estrangeira para tirar do chão os poços que ela mesma quebrou. Em troca, oferece royalties baratos, contratos leoninos e a bênção política de um governo que precisa de dólar como oxigênio. É simbiose entre burocrata falido e executivo faminto, com o povo venezuelano pagando a fatura em salário mínimo de três dólares por mês.
Repare na hipocrisia geométrica do arranjo. A Europa, que passa a semana inteira dando lição de moral sobre transição energética, sanções morais e capitalismo consciente, manda uma de suas jóias corporativas negociar com um governo que a própria diplomacia europeia classifica como autoritário. Quando o combustível é para aquecer o inverno alemão ou abastecer o carro do executivo parisiense, a régua ética encolhe magicamente. Sanções são para os fracos, negócios são para os fortes, e o discurso serve apenas para acalmar o eleitor doméstico que gosta de se sentir superior enquanto abastece o tanque com petróleo lavado.
Há uma lição antiga aí, escrita em todos os manuais que ninguém mais lê. Quando o Estado quebra a indústria e depois convida o capital estrangeiro para operar os cacos, o que se cria não é livre mercado, é feudalismo moderno. O capital não entra porque confia no país; entra porque conseguiu blindagem contratual, garantias diplomáticas e uma parcela do saque que a estatal local não consegue mais fazer sozinha. Isso não é abertura econômica, é partilha de espólio. E o venezuelano comum, que sonha em botar comida no prato, não verá um centavo dessa dança de bilhões, porque o dinheiro entra pelo cano do regime e sai pela conta offshore dos generais.
O caso serve de espelho para quem quiser enxergar. Toda vez que um governo concentra o setor produtivo nas mãos da estatal, sob o pretexto de defender a soberania nacional contra os tubarões de fora, o resultado é sempre o mesmo: a estatal quebra, o país empobrece, e no fim vêm os tubarões mesmos, agora em condições muito piores para o povo do que teriam sido em regime aberto e competitivo desde o começo. A soberania petrolífera de Caracas foi vendida por preço de banana para poder pagar a boletos atrasados do regime. E ainda tem quem defenda o modelo como alternativa ao capitalismo selvagem, como se o que existe hoje na Venezuela fosse alguma outra coisa que não capitalismo selvagem com carimbo bolivariano.
No fim, o acordo é apenas mais um capítulo daquela velha peça em que multinacional e ditador dividem a mesa enquanto o povo divide o resto. A empresa vai reportar aos acionistas o retorno estratégico ao mercado latino-americano, o regime vai reportar aos militares um novo fluxo de caixa, e a imprensa internacional vai enquadrar tudo como sinal de estabilização. Estabilização é o nome técnico do momento em que a barbárie fica lucrativa o suficiente para ser tolerada pela gente educada. Quando o petróleo fala francês, o silêncio dos direitos humanos vira poliglota.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.