A Transparência Internacional publicou nota lamentando a "captura do Estado brasileiro" pelo crime organizado. Lamentando. Como se alguém que assiste a um assalto pela janela, durante trinta anos, e só agora resolve ligar para a polícia, merecesse algum crédito pela coragem tardia. O relatório da CPI do Crime Organizado serviu de gatilho para o comunicado, e o que temos aqui é o espetáculo completo: uma ONG internacional que vive de doações e contratos com governos finge espanto diante de algo que o sujeito mais humilde do interior do Maranhão já sabe desde que aprendeu a votar. O crime organizado está dentro do Estado. A pergunta que a Transparência Internacional jamais fará, porque a resposta comprometeria seus próprios financiadores, é a seguinte: e se o Estado não tiver sido "capturado" por ninguém, e se ele for, por natureza, o veículo perfeito para o crime organizado operar?
Pensem comigo. O que é o Estado brasileiro senão o maior monopólio de força, arrecadação e distribuição de recursos do território? Quem controla a caneta que libera emendas, quem assina a portaria que destina verbas, quem decide qual empresa ganha a licitação, esse sujeito não precisa de fuzil. O fuzil é opcional quando se tem o Diário Oficial. O crime organizado não invadiu o Congresso como quem escala um muro; ele entrou pela porta da frente, de terno, com CNPJ e assessoria jurídica. E entrou porque o sistema de incentivos é perfeito: quanto mais o Estado cresce, quanto mais dinheiro transita pelas mãos de burocratas e parlamentares, maior o prêmio para quem consegue sentar naquela cadeira. Não é defeito do sistema. É o sistema funcionando exatamente como foi desenhado.
A CPI, por sua vez, é uma instituição fascinante. O Brasil já produziu centenas delas. O padrão é sempre o mesmo: meses de depoimentos televisionados, relatórios de milhares de páginas, indiciamentos que viram manchete e depois evaporam no Judiciário. A CPI é o teatro que o Estado monta para convencer o contribuinte de que alguém está cuidando do problema, enquanto o problema continua operando no andar de cima. É a válvula de escape da indignação popular. O cidadão assiste ao show, sente que "algo está sendo feito", e volta para o trabalho na segunda-feira, onde metade do que ele produz é confiscado por um sistema tributário que ninguém votou e ninguém entende. O crime organizado que desvia milhões é manchete; o Estado que confisca trilhões é "política fiscal responsável". A diferença entre o traficante e o legislador é que o segundo tem assessoria de imprensa.
E a Transparência Internacional, quem a financia? Governos europeus, fundações ligadas a organismos multilaterais, agências de cooperação internacional. Ou seja: a entidade que denuncia a captura do Estado pelo crime é ela mesma sustentada por outros Estados. É o cachorro mordendo o próprio rabo e pedindo aplausos pela acrobacia. Quando uma ONG que depende de dinheiro público denuncia o mau uso do dinheiro público, o que temos não é fiscalização, é marketing institucional. A nota serve para justificar a própria existência da organização, para renovar contratos, para manter o fluxo de doações. Siga o dinheiro, sempre. Quem paga a Transparência Internacional não quer transparência; quer a aparência de transparência, que é infinitamente mais barata e infinitamente mais útil.
O que ninguém dirá nessa CPI, nessa nota, nesse ciclo inteiro de indignação performática, é a conclusão que a lógica mais elementar impõe: se toda vez que se concentra poder e dinheiro nas mãos de poucos o resultado é corrupção e crime, talvez o problema não seja quem ocupa o cargo, mas a existência do cargo com esse poder. Trocar o ocupante da cadeira não muda nada quando a cadeira vem com uma chave que abre o cofre de trezentos milhões de contribuintes. O brasileiro médio trabalha cinco meses por ano só para sustentar essa estrutura, e depois precisa de uma ONG europeia para lhe informar que o dinheiro dele foi roubado. A piada se conta sozinha. O Estado não foi capturado pelo crime organizado. O Estado é a franquia mais bem-sucedida que o crime organizado já operou, e a CPI é o relatório trimestral que os acionistas recebem para manter a ilusão de governança corporativa.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.