A cena se repete com pontualidade suíça toda vez que uma farmacêutica de médio porte descobre uma droga com potencial de blockbuster. A Travere Therapeutics chegou à conferência Cantor com o Filspari debaixo do braço, medicamento indicado para uma doença renal rara chamada nefropatia por IgA, e vendeu aos investidores a promessa de crescimento acelerado. Wall Street bateu palma, o papel reagiu, e ninguém no auditório teve a coragem de fazer a pergunta que interessa: por que, exatamente, um único remédio consegue mover tanto dinheiro de uma vez só? A resposta não está na ciência, está no arranjo institucional que transforma inovação legítima em monopólio protegido.
Olha, o modelo é conhecido de cor por qualquer um que já leu a letra miúda do sistema regulatório americano. Você desenvolve uma droga para doença rara, ganha designação de orphan drug, colhe sete anos de exclusividade garantida por lei, empilha patentes secundárias sobre formulação, dosagem e método de uso, e no fim do processo pratica preços que só se sustentam porque a agência reguladora criou uma cerca eletrificada em volta do seu produto. O paciente com IgAN não tem escolha, o plano de saúde é obrigado a cobrir, e o contribuinte americano, via Medicare, financia o brinquedo. A Travere não descobriu ouro, descobriu uma mina cuja escritura foi assinada em Washington.
Quer dizer, ninguém está negando que o Filspari funciona ou que a pesquisa custou caro. O ponto é outro. O que se vê é a droga salvando rins, e isso é palpável, fotogênico, adequado para relatório trimestral. O que não se vê é a fila de pequenas biotechs que foram compradas, sufocadas ou impedidas de competir porque não tinham capital para atravessar o labirinto regulatório. O que não se vê são as terapias alternativas que nunca chegaram ao mercado porque o custo de aprovação subiu tanto que só gigantes conseguem pagar. O que não se vê é o preço que cairia setenta por cento no dia seguinte à entrada de um genérico, se o genérico fosse permitido.
Me diz uma coisa, quando um analista de banco descreve o Filspari como impulsionador de crescimento, ele está descrevendo desempenho de mercado ou desempenho de lobby? Porque as duas coisas ficaram indistinguíveis nesse setor. A farmacêutica moderna não vende remédio, vende exclusividade legal com efeito colateral terapêutico. E o investidor sofisticado sabe disso, tanto que precifica o papel não pela qualidade da molécula, mas pela solidez do escudo jurídico que a protege. Se amanhã o Congresso americano cortasse pela metade o prazo da exclusividade orphan, metade dessas empresas viraria pó antes do fim do pregão.
Há ainda a parte que costuma ficar de fora dos press releases. O crescimento anunciado depende de expansão para novas indicações, o que significa novos ensaios clínicos, o que significa mais anos de proteção patentária empilhada, o que significa preço alto por mais tempo. É uma engrenagem elegante, projetada para transformar cada centavo de pesquisa em décadas de renda garantida. O paciente renal cônico agradece a existência do medicamento, evidentemente, mas paga um pedágio que teria sido metade, um terço, um décimo, se existisse concorrência real. E o mais irônico é que essa concorrência foi eliminada em nome da proteção ao paciente, o mesmo paciente que agora não consegue pagar a conta.
A conferência Cantor é o ritual anual em que esse arranjo é celebrado como triunfo do capitalismo, quando é exatamente o oposto. Capitalismo genuíno é entrada livre, saída livre, preço formado por quem produz e quem compra. O que a Travere pratica, e o que o setor inteiro pratica, é mercantilismo farmacêutico, versão século vinte e um da carta de monopólio que a Coroa Britânica distribuía aos amigos do rei. Trocaram a peruca pelo terno, o rei pelo comissário da FDA, e o resto continua igual. Enquanto o investidor comum aplaude o gráfico ascendente, alguém está pagando essa conta, e você já sabe quem.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.