Mais um trem fora dos trilhos, mais uma manhã de segunda-feira transformada em peregrinação forçada, mais um comunicado morno da concessionária pedindo paciência ao passageiro que já não tem nem fôlego. A ViaMobilidade, operadora da Linha 9-Esmeralda, informou que a circulação foi reduzida a via única depois que um trem descarrilou na noite de domingo, e o pano de fundo, como sempre, é aquele teatrinho conhecido: a empresa lamenta, o governo observa, o usuário paga. O paulistano acordou cedo, embarcou empilhado, chegou atrasado, perdeu hora de trabalho e, no fim do mês, vai descobrir que o reajuste tarifário continua de pé, porque na conta da concessão o azar é sempre do passageiro, nunca do concessionário.

É preciso lembrar como esse arranjo funciona, porque a propaganda da privatização vendeu uma fábula que não sobreviveu ao primeiro inverno. O que existe na malha metropolitana de São Paulo não é livre mercado, é concessão monopolista, ou seja, o pior dos dois mundos: a empresa tem o lucro privado garantido por contrato, e o risco operacional, quando aparece, escorre para o colo do contribuinte, que banca subsídio, banca obra, banca tarifa social, banca o trem que descarrila e ainda banca o relatório que vai explicar por que o trem descarrilou. O usuário não escolhe outra empresa porque não há outra, não negocia preço porque o preço é fixado por planilha política, e quando reclama ouve o velho refrão de que sem concessão seria pior, argumento que só convence quem nunca andou de São Paulo a Osasco numa terça de chuva.

Acompanhe o dinheiro e a fumaça se dissipa. Quem ganha quando uma linha desse porte é entregue a um operador único, com subsídio, com tarifa garantida, com cláusulas de reequilíbrio econômico que transformam qualquer susto em fatura para o cofre público? Ganha o concessionário, que assina contrato de duas décadas com receita previsível. Ganham os bancos que financiam o material rodante velho que ele herdou. Ganham os escritórios de advocacia especializados em renegociar concessão sempre que o vento muda. Ganham os políticos que cortam fita de obra e depois somem quando a obra começa a chiar. E quem paga? O sujeito que precisa estar no batente às sete da manhã, o vendedor que perdeu a comissão, a empregada que tomou advertência, o estudante que perdeu a prova. Esses não aparecem na coletiva, não têm assessoria, não têm cláusula de reequilíbrio. Têm catraca.

O argumento de que a culpa é técnica, de que descarrilamento acontece em todo lugar, de que é normal, é a forma elegante de pedir que o público engula sapo com sorriso. Pode até ser tecnicamente verdade que vagões saem do trilho no mundo inteiro, mas a frequência com que isso vira rotina aqui, a velocidade com que o serviço degrada e a impunidade contratual com que tudo é absorvido revelam algo mais profundo do que falha mecânica. Revelam um modelo em que a empresa não tem incentivo real para investir em qualidade, porque a tarifa não responde ao serviço prestado, responde ao contrato. Não é o passageiro insatisfeito que decide o futuro do operador, é o secretário, o regulador, o governador. E como já se viu na história de toda concessão mal desenhada, do pedágio fantasma do século passado às ferrovias subsidiadas do velho mundo, quando o cliente não pode demitir o fornecedor, o fornecedor passa a tratar o cliente como obrigação, não como razão de existir.

Há ainda a comédia das siglas: agência reguladora que regula no papel, ouvidoria que ouve no piloto automático, secretaria que comunica via rede social com hashtag de pedido de desculpas. A burocracia descobriu que pedir desculpas custa menos do que consertar trilho, e que comunicado bem redigido vale por uma manutenção. Enquanto isso, o trabalhador que mora na ponta da linha, justamente aquele que não tem alternativa, aquele que escolheu morar longe porque foi empurrado pela explosão do custo de vida que essa mesma engenharia política produziu, segue sendo a variável de ajuste do sistema. Quando o trem para, ele atrasa. Quando a tarifa sobe, ele paga. Quando a concessão é renegociada, ele não é consultado. É um cidadão de segunda classe num vagão de terceira.

A pergunta honesta, aquela que ninguém na coletiva quer ouvir, é simples e brutal: por quanto tempo mais o paulistano vai aceitar pagar tarifa de primeiro mundo por serviço de quintal, financiando com seu imposto a infraestrutura, com sua passagem o lucro do operador, e com seu tempo de vida o atraso estrutural de um modelo que se sustenta na ausência de alternativa? Trem descarrilou, sim. O que descarrilou junto foi a desculpa. E enquanto a conta continuar caindo no mesmo bolso de sempre, o do trabalhador sem voz, qualquer promessa de melhoria é só fumaça, do tipo que sai de freio gasto em via única numa manhã de segunda-feira.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.