A notícia veio embrulhada em papel de presente humanitário, mas o conteúdo é o de sempre. Tribunais chineses decidiram que substituir trabalhador por inteligência artificial não está entre as causas legais de demissão. Traduzindo do juridiquês para o português dos mortais: se o seu negócio tem mil funcionários e a máquina faz o serviço de oitocentos, o problema é seu, camarada empresário. Pague os mil, alimente os mil, sustente os mil, e reze para que o consumidor continue comprando o produto encarecido por essa folha inflada artificialmente. O regime que se vendeu ao mundo como o futuro tecnológico do planeta acaba de descobrir que a tecnologia, quando ameaça o emprego do eleitor, vira caso de polícia.

Vale parar um instante na contradição, porque ela é deliciosa. O mesmo Estado que subsidia bilhões em pesquisa de IA, que despeja dinheiro público em data centers do tamanho de cidades, que se gaba de liderar a corrida algorítmica contra o Ocidente, agora proíbe que essa mesma IA produza o efeito mais óbvio de toda revolução tecnológica desde o tear mecânico: liberar mão de obra. Querem o ovo sem quebrar a galinha, querem o motor a vapor sem fechar a oficina do ferreiro, querem a luz elétrica sem despedir o acendedor de lampiões. É o tipo de pensamento mágico que costuma terminar em fila de pão e cartilha de racionamento.

Siga o dinheiro, que ele sempre conta a verdade. Quem paga essa conta? O empresário privado, na ponta visível, obrigado a manter ociosos no salão como se fossem peças de museu vivo. Mais ao fundo, o consumidor chinês, que pagará mais caro pelo produto que poderia custar metade. Mais ao fundo ainda, e este é o segredo industrial do regime, o próprio Partido, que precisa desesperadamente impedir um exército de desempregados urbanos batendo na porta dos comitês locais com fome e tempo livre. Demissão em massa, na contabilidade política de Pequim, custa mais do que produtividade perdida. O cálculo não é econômico, é de sobrevivência do aparato.

Há quem aplauda a medida em nome do trabalhador, e aqui vale o silogismo de manual. Toda proibição de demitir é, por definição, uma proibição de contratar. Premissa simples, conclusão inevitável: o empresário que sabe não poder se livrar do funcionário amanhã pensará dez vezes antes de admiti-lo hoje. A consequência, conhecida de toda economia que tentou esse truque, da Argentina peronista à França mitterrandiana, é o congelamento do mercado de trabalho, a informalidade explodindo pelos cantos e o jovem recém-formado descobrindo que a generosidade legal protege quem já está dentro e tranca a porta para quem está fora. Compaixão decretada por canetada quase sempre se vinga das vítimas que pretendia salvar.

O detalhe mais saboroso, contudo, é cultural. Durante quarenta anos a propaganda ocidental nos vendeu a fábula de que a China havia descoberto uma fórmula mágica, capitalismo de Estado, eficiência autoritária, o melhor dos dois mundos. Bastou a IA encostar a faca no pescoço do emprego médio para o feitiço ruir e o regime mostrar a cara de sempre, a do velho controle político disfarçado de cuidado social. No fundo, todo poder centralizado teme uma coisa só, gente sem ocupação e com tempo para pensar. Foi assim com os imperadores romanos distribuindo trigo, foi assim com os faraós inventando obras públicas faraônicas, é assim agora com toga vermelha proibindo o futuro de chegar antes da hora autorizada. Muda o figurino, o roteiro é o mesmo desde que existe trono.

Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta. Quem paga, quem recebe? Paga o produtor, paga o consumidor, paga o desempregado que nunca será contratado. Recebe o burocrata, que ganhou mais um botão no painel para apertar, e recebe o aparato político, que comprou alguns anos a mais de paz social ao custo de empobrecer todo mundo um pouquinho. O preço dessa bondade compulsória virá, como sempre vem, na forma de produtos piores, salários estagnados e uma economia que envelhece junto com seus tribunais. A máquina espera. O salário continua. A conta, essa, chega depois, sem aviso e sem juiz para barrar.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.