O ocupante da Casa Branca enviou cartas aos líderes do Legislativo informando, com a serenidade de quem comunica o cardápio do almoço, que as hostilidades contra o Irã terminaram em abril. O detalhe pitoresco é que as operações militares continuam. Traduzindo do idioma imperial para o português dos mortais: a guerra acabou no papel timbrado, mas os mísseis seguem cumprindo a agenda. É a velha arte de redefinir as palavras até que elas signifiquem o oposto do que sempre significaram, recurso predileto de todo poder que precisa esconder o que faz por trás do que diz.

A Constituição americana, aquele documento que figuras de bronze juram defender em cerimônias bem iluminadas, é cristalina num ponto: declarar guerra é prerrogativa do Congresso. Não do presidente, não do Pentágono, não do conselheiro de segurança nacional que tomou café com o lobista da indústria bélica. Do Congresso. A engenharia do texto não foi acidente; foi a tentativa explícita de impedir que um único homem, num acesso de humor ou pressão de financiadores, jogasse o país inteiro numa fogueira distante. Mas a engenhosidade dos juristas palacianos descobriu há décadas que basta não chamar de guerra. Chama de operação, chama de hostilidade contida, chama de ação cinética limitada, chama do que quiser, contanto que a palavra proibida não seja pronunciada. O resultado prático é o mesmo: gente morre, dinheiro evapora, e ninguém precisa votar nada.

A pergunta que ninguém da imprensa cortês faz é a mais elementar: a quem aproveita esta guerra que oficialmente já não existe? Siga a fatura. Os contratos de munição reposta não se assinam sozinhos. Os porta vozes de fabricantes de drones, mísseis e sistemas eletrônicos não estão de luto pela continuidade do conflito; estão calculando o trimestre. O orçamento militar americano, que já consome mais que os dez maiores exércitos do mundo somados, sempre encontra um pretexto para crescer, e o pretexto dura exatamente o tempo necessário para o próximo aparecer. O contribuinte do Kansas paga, o engenheiro de Riad reclama, o jovem do Iêmen morre, e o acionista de Bethesda recebe dividendos. É um mecanismo tão antigo quanto eficiente, e tem a vantagem de funcionar sob qualquer governo, de qualquer cor partidária, com qualquer discurso na vitrine.

Há uma lógica brutalmente simples aqui que merece ser exposta sem véus. Se a guerra terminou, então os bombardeios em curso são o quê? Se os bombardeios em curso são guerra, então a guerra não terminou. Não há terceira opção, não há meio termo retórico, não há ginástica semântica que reconcilie as duas afirmações. Ou o presidente está mentindo sobre o fim das hostilidades, ou está mentindo sobre o que está fazendo no terreno. Em qualquer dos casos, o Congresso foi contornado, a Constituição foi reduzida a peça de museu, e o cidadão comum descobriu mais uma vez que o regime sob o qual vive não é exatamente o que ensinaram na aula de educação cívica. Aliás, a aula de educação cívica também é parte do truque.

O Senado Romano agonizou assim, não num único golpe espetacular, mas em centenas de pequenos contornos, exceções, urgências e interpretações criativas. Cada imperador jurava preservar as formas republicanas enquanto esvaziava o conteúdo, e cada geração nova achava normal o que a anterior teria considerado escândalo. Quando alguém percebeu, o Senado havia virado clube de aplauso. Os Estados Unidos atravessam uma fase parecida há tempos, mas o fenômeno se acelera quando o ocupante do trono passa a comunicar suas decisões de guerra como quem manda recado por bilhete. Repúblicas não morrem de tanque na rua; morrem de carta protocolada. E os legisladores, que poderiam barrar isso com um voto, preferem o conforto morno de receber a missiva, lê la, arquivá la e voltar para a campanha de reeleição financiada pelos mesmos lobistas que faturam com a guerra que oficialmente acabou.

Resta a pergunta inicial, que nunca envelhece: quem paga e quem recebe? Paga o americano médio, em impostos, inflação e filhos enviados para morrer em desertos cujos nomes ele não sabe pronunciar. Recebe o complexo industrial militar, recebe a casta de consultores de segurança que circula entre Pentágono e diretorias privadas, recebem os aliados regionais que conseguem lavar suas próprias rivalidades no sangue financiado por Washington. Quanto ao Congresso, recebeu uma carta. Devidamente protocolada. Educadíssima. Comunicando que a guerra acabou. Enquanto continua.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.