A cena é quase cômica, se não fosse trágica. O presidente dos Estados Unidos sobe ao palco digital para agradecer publicamente ao regime dos aiatolás pela "reabertura total" de um estreito que nunca deveria ter sido fechado em primeiro lugar. É o equivalente geopolítico de aplaudir o ladrão que resolveu não arrombar sua casa hoje. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, virou o brinquedo favorito de Teerã justamente porque o mundo inteiro faz questão de pagar para brincar. Fecha, abre, ameaça, recua, e cada ciclo rende bilhões em barris mais caros, contratos militares, seguros marítimos inflacionados e manchetes que legitimam regimes que, sem esse palco, seriam apenas mais uma satrapia decadente.
Observem a mecânica do truque, porque ela é velha como as guerras púnicas. Israel e Líbano aceitam um cessar fogo de dez dias, prazo ridiculamente curto que todo mundo sabe que servirá apenas para rearmar os dois lados. No mesmo ato, como por milagre coreografado, o Irã libera o tráfego marítimo. Coincidência? Só acredita em coincidência quem também acredita que governo existe para servir o povo. O que se vê ali é a dança ritualizada de três atores que se precisam mutuamente: o regime xiita que vive da ameaça, o governo israelense que vive da resposta, e o império americano que vive de arbitrar o teatro cobrando ingresso em dólar.
Sigam o dinheiro, sempre. Quem lucra com um estreito fechado por 72 horas? As petroleiras, que reajustam preços globalmente e não devolvem nada quando o fluxo retorna. As empresas de armamento, cujos contratos do Pentágono são aprovados no susto, sem debate, sem licitação aberta, sob o argumento de "emergência nacional". Os bancos que financiam a festa toda e cobram juros das duas pontas. E os políticos, que transformam cada crise manufaturada em capital eleitoral, apontando inimigos convenientes e posando de heróis perante câmeras complacentes. Quem paga? O motorista brasileiro que abastece o carro na segunda feira, o caminhoneiro europeu, a dona de casa indiana, o trabalhador americano que descobre a inflação energética como se fosse fenômeno meteorológico, e não resultado direto de decisões tomadas por gente de gravata em salas fechadas.
O silogismo é brutal em sua simplicidade. Se o Irã pode fechar o estreito quando quer e abrir quando quer, então o Irã controla o estreito. Se o Irã controla o estreito e os Estados Unidos agradecem publicamente pela abertura, então os Estados Unidos reconhecem esse controle como legítimo. E se esse controle é reconhecido como legítimo, todo o discurso sobre "liberdade de navegação" e "ordem internacional baseada em regras" é apenas verniz retórico para esconder uma verdade desagradável: as superpotências não querem acabar com os vilões, querem administrar a vilania em doses calibradas, porque o vilão é útil demais para ser eliminado. Sem aiatolá, como justificar a Quinta Frota? Sem Hamas, como manter o complexo de defesa israelense? Sem a ameaça persa, como vender F-35 para os árabes?
Há uma inteligência popular no ditado de que quem afaga a serpente acaba mordido, mas a serpente, essa, come o ano inteiro. O regime iraniano é um cadáver econômico ambulante, sustentado por sanções que o fortalecem internamente, por adversários que precisam da sua existência para justificar os próprios orçamentos, e por uma diplomacia ocidental que confunde gesticulação com estratégia. Agradecer publicamente por uma concessão que sequer era concessão é ensinar ao aiatolá que o método funciona. Da próxima vez que precisarem de uma manchete, de um adiamento, de uma barganha, de uma remessa de armas contrabandeadas ou de um alívio sancionatório disfarçado, basta apertar o Estreito. Os mercados entram em pânico, os políticos entram em pânico performático, e a caixa registradora toca para todo lado, menos para o sujeito que trabalha honestamente e nunca pediu para participar dessa ópera.
A pergunta que o contribuinte deveria fazer, e que nenhum jornal com acesso a briefings oficiais fará, é simples: por que um governo republicano americano, eleito com discurso de desmontar o intervencionismo, está ali fazendo mesura para o principal patrocinador estatal do terrorismo no Oriente Médio? A resposta também é simples, ainda que desagradável. Porque o Estado, seja qual for a bandeira hasteada, é o mesmo animal: vive de manufaturar crises para vender soluções, e quando não consegue manufaturar, alugadas do vizinho servem. Ormuz aberto, Ormuz fechado, tanto faz. O que importa é que haja Ormuz, que haja inimigo, que haja urgência, que haja orçamento. Enquanto isso, o rei continua nu, o aiatolá continua rico, o preço do diesel continua subindo, e o povo continua pagando por uma segurança que nunca chega, contra uma ameaça que nunca some, num teatro cujo ingresso ele é obrigado a comprar na forma de imposto, inflação e guerra alheia.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.