Donald Trump ficou diante das câmeras ao lado do seu secretário de Defesa e do chefe do Estado-Maior, e anunciou, com a naturalidade de quem comenta o placar de um jogo de futebol, que os Estados Unidos são capazes de destruir o Irã "em uma noite". O prazo para a reabertura do Estreito de Ormuz expirou nesta terça-feira, às 21h no horário de Brasília, com usinas elétricas e pontes listadas como alvos potenciais. Repita a cena na sua cabeça por um instante: um homem, eleito por 77 milhões de votos num país que não faz fronteira com o Irã, ameaça apagar a infraestrutura de uma nação de 90 milhões de pessoas porque a janela d'água que banha suas costas é inconveniente para o mercado energético global. Isso não é política externa; isso é extorsão com logotipo de superpotência.
Ormuz não é um detalhe geográfico menor. Por aquele gargalo de 33 quilômetros passam, todo dia, entre 20 e 21 milhões de barris de petróleo bruto, algo próximo a 20% de todo o consumo mundial. Fechar Ormuz é apertar o torniquete da economia global, e o Irã sabe disso com uma clareza que não precisa de curso universitário para ser compreendida. Os impérios sempre souberam onde apertar. Roma controlava o Mediterrâneo. Veneza controlava as rotas de especiarias. A Grã-Bretanha construiu sua marinha para garantir que nenhum ponto de estrangulamento comercial escapasse da sua sombra. O que mudou não é a lógica do poder, é apenas o nome do império e a velocidade com que as ameaças chegam ao feed de notícias. O mecanismo é idêntico: quem controla o corredor, controla o preço; quem controla o preço, controla o comportamento das nações.
O que incomoda, e incomoda de verdade, não é a dureza da postura americana. Dureza tem lugar no mundo real, e qualquer pessoa com dois neurônios em funcionamento entende que o Irã dos aiatolás não é uma democracia liberal de bom coração sofrendo perseguição gratuita. O problema é outro. É a arquitetura do processo decisório: um presidente sozinho, ladeado por militares de carreira e por um secretário de Defesa, anunciando prazos de destruição como se estivesse negociando prazo de entrega de mercadoria. Não há Congresso visível nessa equação. Não há debate público. Não há custo político mensurado antes da ameaça ser vocalizada. Há um microfone, há câmeras, e há a convicção de que o tamanho do arsenal legitima a dispensa do argumento. Esse é o vírus que corrói as repúblicas desde que repúblicas existem: a substituição da deliberação pela intimidação.
Siga o dinheiro, porque ele nunca mente. Cada vez que Ormuz fecha, mesmo que por boato, o barril sobe. Cada vez que o barril sobe, as empresas de defesa, as tradings de commodities e os grandes bancos de investimento posicionados em energia registram ganhos que fariam corar qualquer manual de ética empresarial. A guerra, ou a ameaça convincente de guerra, é o produto mais lucrativo que o aparato estatal jamais colocou no mercado. Não existe indústria no mundo que produza retorno sobre capital comparável ao contrato de defesa firmado após um discurso presidencial ameaçador. O contribuinte americano paga o exército, o exército garante a ameaça, a ameaça valoriza os ativos, e os ativos pertencem a quem teve a lucidez de investir antes do pronunciamento. Quem chamou isso de "complexo militar-industrial" não estava sendo paranoico; estava sendo descritivo.
Resta ao restante do mundo a posição mais desconfortável que existe na política internacional: a do vizinho que ouve a briga do apartamento de cima e não sabe se liga para a polícia ou se finge que não ouviu nada. O Brasil, a Europa, a China e a Índia dependem do petróleo que passa por Ormuz. Uma guerra ali não é uma tragédia remota, é um choque de abastecimento que se traduz em preço de combustível, custo de transporte, inflação de alimentos e desemprego para pessoas que nunca viram um mapa do Golfo Pérsico. O Estado, em qualquer latitude, tem essa habilidade peculiar de exportar as consequências de suas decisões para quem não participou de nenhuma delas. Trump ameaça, o Irã responde, e o frentista de posto em Cuiabá paga a diferença no preço do litro. Sempre foi assim. Sempre será, enquanto o poder de declarar guerra custar menos a quem o exerce do que a quem o suporta.
Com informações da Conexão Política. A análise e opinião são do O Algoz.