Donald Trump publicou no domingo, 12 de abril, via Truth Social, a intenção de impor um bloqueio naval ao Irã no Estreito de Ormuz. Apenas isso. Uma publicação de rede social que, se levada a sério e executada, fecha o corredor marítimo por onde trafega algo entre 20% e 21% de todo o petróleo líquido consumido no planeta. O Estreito de Ormuz tem, em seu ponto mais estreito, cerca de 34 quilômetros de largura navegável. Trinta e quatro quilômetros de garganta por onde passa a civilização industrial moderna. Fechar isso não é uma manobra militar, é uma intervenção cirúrgica na economia global sem anestesia, e a palavra "cirurgia" aqui é eufemismo delicado para o que realmente seria: um choque de oferta de proporções históricas, com inflação de energia disparando em cascata por cada cadeia produtiva que depende de petróleo, que é, convenientemente, todas elas.
Existe uma geometria perversa no poder estatal que qualquer pessoa com dois dedos de testa deveria reconhecer: o governante anuncia, os generais planejam, a indústria de defesa fatura, e o cidadão médio descobre o resultado na bomba de gasolina três semanas depois, sem que ninguém lhe tenha pedido opinião. O bloqueio naval é, por definição, um ato de guerra, não importa o verniz diplomático com que se embrulhe. Roma bloqueou Cartago. A Inglaterra bloqueou Napoleão. Os aliados bloquearam a Alemanha na Primeira Guerra e a fome resultante matou centenas de milhares de civis alemães. O bloqueio, como instrumento de Estado, tem um histórico de colateralidade que a retórica triunfante dos comunicados oficiais jamais menciona. Trump não mencionou, naturalmente.
Siga o dinheiro, porque ele nunca mente. Um bloqueio naval ao Ormuz exige posicionamento de porta-aviões, contratorpedeiros, submarinos, logística de combustível e munição para a própria frota, contratos de manutenção, inteligência em tempo real, e todo um ecossistema de fornecedores privados que vivem muito bem às custas do Tesouro americano, que por sua vez vive às custas do contribuinte americano e, indiretamente, de qualquer país que mantém reservas em dólar, o que inclui o Brasil. Cada escalada retórica de Washington tem uma cotação nos mercados de futuros de petróleo antes de ter qualquer consequência física no Golfo Pérsico. Especuladores posicionados compram antes do anúncio, vendem depois da alta, e a diferença sai do bolso do caminhoneiro que abastece na BR-163. Isso não é teoria conspiratória, é o funcionamento ordinário e documentado dos mercados financeiros sob sombra de conflito geopolítico.
O Irã, por sua vez, não é a república bananeira que alguns imaginam quando leem a palavra "sanções". É um Estado com 90 milhões de habitantes, reservas provadas de petróleo de 155 bilhões de barris, o segundo maior exército convencional do Oriente Médio, e mísseis balísticos de alcance suficiente para atingir qualquer base americana na região, das quais existem pelo menos meia dúzia. A Rússia e a China, que têm contratos de infraestrutura, energia e armamento com Teerã, vão cruzar os braços e observar com benevolência enquanto Washington fecha o Ormuz? A resposta óbvia é não, mas a obviedade raramente habita os comunicados presidenciais de domingo em redes sociais. A escalada não acontece em linha reta; ela acontece por acidente, por orgulho ferido, por erro de cálculo, por um comandante de campo que interpreta de maneira equivocada uma ordem ambígua. A história da guerra está cheia desses momentos em que alguém puxou o gatilho sem saber que estava apontando para o próprio pé do mundo.
Há uma confusão fundamental que o discurso de força sempre comete: trata o poder do Estado como se fosse poder do povo. Não é. O Estado americano pode decretar um bloqueio naval; o povo americano vai pagar o petróleo mais caro, arcar com a inflação gerada pelo choque de oferta, financiar via impostos a operação naval, e mandar seus filhos para o mar se a coisa escalar para além do anúncio de domingo. Trump fala em nome de uma grandiosidade que não é dele e que não pertence a nenhum governante, fala em nome de um poder que é, na sua essência, o poder de gastar o dinheiro alheio e arriscar a vida alheia com a solenidade de quem assina um decreto. O Estreito de Ormuz vai continuar existindo depois de Trump, assim como continuou existindo depois de todos os que antes dele tentaram controlar o mundo pela garganta da energia. O petróleo encontra caminho. O custo da tentativa de bloqueá-lo, esse sim, fica.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.