Neste domingo o inquilino temporário da Casa Branca veio a público anunciar, com aquele ar triunfal de quem acabou de caçar um javali no quintal, que forças americanas interceptaram e se apossaram de uma embarcação iraniana no Golfo de Omã, perto do Estreito de Ormuz. A palavra usada foi bloqueio, que soa mais civilizada do que a palavra correta, que é pirataria. Quando um cidadão comum aborda barco alheio em águas internacionais, chama-se crime e vai para o noticiário policial. Quando um governo faz a mesma coisa com porta-aviões, chama-se política externa e vai para a capa dos jornais com trilha sonora heroica.
Convém lembrar a geografia antes de engolir a narrativa. O Estreito de Ormuz é o gargalo por onde passa aproximadamente um quinto do petróleo do mundo. Controlar quem entra e quem sai dali não é proteger a liberdade de ninguém, é cobrar pedágio com fardas em vez de cancelas. As repúblicas marítimas do passado faziam a mesma coisa no Mediterrâneo, só que com menos retórica democrática e mais honestidade. Hoje o truque é o mesmo, mudaram apenas os slogans e o tamanho das embarcações. O mar continua sendo, como sempre foi, a autoestrada do poder.
Olhe para o arranjo e pergunte o óbvio. Quem paga essa excursão? O contribuinte americano, que vê seu salário derreter em dólar desvalorizado enquanto a Marinha faz turismo armado a oito mil quilômetros de casa. Quem recebe? Em primeiro lugar, o complexo industrial que vende mísseis, radares, drones e contratos de manutenção a preços que dariam inveja a qualquer cartel. Em segundo, as seguradoras marítimas, que aumentam os prêmios a cada tensão no estreito. Em terceiro, os produtores de petróleo de fora da região, que celebram sempre que o barril sobe por medo. Não existe episódio militar no Golfo sem uma planilha de lucros correspondente em Houston, em Londres e nos subúrbios da Virgínia.
A premissa oficial é sempre a mesma: o Irã é a ameaça, portanto qualquer ato contra o Irã é defesa. Aceite a premissa e a conclusão vem de brinde. O problema é que a premissa nunca é examinada, só repetida. Um regime teocrático medieval que mal consegue manter a luz acesa em Teerã virou, por milagre da propaganda, a potência existencial que justifica orçamentos trilionários. Se um aluno apresentasse esse silogismo numa prova de lógica levaria zero, mas no jornalismo de agência passa como verdade revelada. Repetir mil vezes não transforma disparate em razão.
Há ainda a ironia histórica que ninguém tem coragem de mencionar. Foi Washington quem derrubou o governo iraniano democraticamente eleito em 1953 para instalar um xá conveniente, cujo regime brutal pariu exatamente a revolução teocrática que hoje servem de espantalho para justificar novas aventuras. O incêndio que agora querem apagar com gasolina foi aceso pela mesma mão, com o mesmo fósforo, pela mesma razão, que é sempre o petróleo e o pedágio geopolítico. Chamam isso de política externa responsável. No dicionário dos homens comuns, o nome é outro.
Enquanto o cidadão médio discute nas redes sociais se o presidente foi corajoso ou imprudente, o dinheiro muda de mão silenciosamente. Ações de defesa sobem, contratos são renovados, burocracias crescem, tratados são reescritos. O teatro continua, os atores envelhecem, o enredo não muda. Todo império, na sua decadência, precisa encenar vitórias cada vez maiores para disfarçar derrotas cada vez mais profundas em casa. O cargueiro iraniano é figurante. O protagonista é sempre o mesmo, e atende pelo nome de orçamento militar. Quem paga continua sendo você. Quem recebe continua sendo eles.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.