A coreografia foi quase cômica. Na segunda, o vice-presidente sobe ao palanque e informa, com aquela cara de quem traz a notícia adulta, que o envio de tropas adicionais à Polônia estava adiado, sinalizando contenção. Quarenta e oito horas depois, o chefe pega o megafone e anuncia o contrário: cinco mil soldados a mais cruzarão o Atlântico rumo a Varsóvia. O presidente polonês, Karol Nawrocki, agradeceu publicamente, como manda o protocolo de quem recebe presente caro pago pela conta alheia. E está aí, em estado puro, o teatro da política externa: o roteiro muda conforme a plateia, mas o boleto é sempre o mesmo, e cai sempre no mesmo endereço.

Convém perguntar, antes de qualquer floreio geopolítico, a única pergunta que importa: quem paga e quem recebe? Paga o sujeito que acorda às cinco da manhã em Ohio para empacotar caixas num galpão da Amazon, paga a enfermeira do Texas que vê o supermercado encarecer mês a mês, paga o aposentado da Flórida cujo dólar já não compra metade do que comprava em 2019. Recebem, nesta ordem, o complexo industrial militar que fornece blindados, munição, manutenção e logística; a burocracia da Otan, que justifica sua existência inflando ameaças; e a classe política polonesa, que ganha o privilégio doméstico de hospedar a maior potência militar do planeta sem precisar pagar pelo banquete.

O argumento oficial é sempre o mesmo, gasto até o talo: dissuadir o urso russo, proteger o flanco leste, garantir a segurança coletiva. Belas palavras, todas envernizadas pela mesma indústria de propaganda que vendeu armas de destruição em massa no Iraque, democracia florescente no Afeganistão e estabilidade duradoura na Líbia. O resultado prático destas aventuras está nas estatísticas de veteranos suicidas, nos trilhões evaporados em desertos distantes e nas cidades americanas decadentes que jamais viram um centavo daquele orçamento defensivo. Mas o roteiro se repete, porque o roteiro é lucrativo para quem o escreve.

Há ainda a parte que ninguém quer dizer em voz alta. Tropa permanente em país estrangeiro é, na prática, um penhor: o anfitrião amarra sua política externa ao patrocinador, e o patrocinador amarra sua credibilidade ao anfitrião. É o velho jogo dos impérios desde os legionários em Germânia, passando pelos casacas vermelhas nas treze colônias, até os contingentes britânicos no canal de Suez. Sempre se vendeu como proteção, sempre terminou como ocupação onerosa, sempre quebrou o tesouro de quem mandou os soldados. A diferença é que, desta vez, a máquina de imprimir dinheiro permite adiar a falência contábil; o calote real é cobrado em silêncio, na forma de preços que sobem e poupanças que evaporam.

O detalhe saboroso, quase cínico, é a contradição de quarenta e oito horas entre vice e presidente. Não houve fato novo, não houve missile crisis, não houve mudança no tabuleiro. Houve, isto sim, uma ligação, uma reunião, uma pressão, um lobby, alguma promessa cruzada nos corredores. A política externa da maior potência do mundo girou cento e oitenta graus em dois dias úteis, e ninguém no Congresso votou nada. Se um pai de família mudasse o orçamento doméstico com essa volubilidade, a esposa pediria divórcio. Quando o governo faz, chamam de estratégia.

Volte então à pergunta inicial, porque ela é a única honesta. Quem paga estes cinco mil soldados, com seus salários, seus equipamentos, suas bases, sua logística transatlântica, seus seguros, suas pensões futuras? O contribuinte que jamais foi consultado. Quem recebe? Os fornecedores de sempre, os burocratas de sempre, os aliados de sempre, todos hábeis em transformar a ansiedade alheia em contrato faturado. O resto é fumaça, bandeira tremulando ao vento e discurso solene sobre liberdade, justamente a palavra que mais sofre quando o império resolve protegê-la com o cartão de crédito dos outros.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.