Mais de sessenta dias de navios parados no estreito de Ormuz, mercadoria apodrecendo nos porões, seguros disparando, e a comunidade internacional fingindo que o problema era meteorológico. Aí, num passe de mágica calculado, o ocupante da Casa Branca anuncia o pomposamente batizado Projeto Liberdade, uma operação para escoltar as embarcações reféns do bloqueio do aiatolá. O nome já entrega o jogo, porque quando um governo precisa colar a palavra liberdade na operação militar, é porque está vendendo exatamente o oposto. Liberdade de verdade não anda fardada nem precisa de marketing.
Antes de aplaudir o cavaleiro andante de Washington, convém perguntar quem são os tais países que pediram socorro e, mais importante, quem são os armadores donos das cargas. Petróleo saudita, contêineres japoneses, químicos sul coreanos, gás catariano, tudo passa por aquele funil de poucos quilômetros de largura. O frete e o seguro desses navios são privados, o lucro da travessia é privado, mas o custo da escolta militar, o combustível dos destróieres, o soldo dos fuzileiros e, eventualmente, o caixão coberto pela bandeira, esse pedaço é socializado no contribuinte americano. Privatizam o ganho, estatizam a bala. Velho truque, fantasia nova.
A lógica é elementar e dispensa diploma de Harvard. Se a operação é necessária, é porque há comércio que a justifica. Se há comércio que a justifica, há dono desse comércio. Se há dono desse comércio, é ele quem deveria pagar pela própria proteção, contratando segurança privada, pagando seguro de guerra mais caro, ou simplesmente assumindo o risco da rota. Em vez disso, transforma-se o porta aviões em concessionária pública, e o cidadão de Iowa, que nunca viu um navio na vida, financia a margem de lucro do magnata do petróleo do Golfo. Isso não se chama defesa nacional, chama-se subsídio armado a cartel internacional.
O bloqueio iraniano, é claro, é uma canalhice. Mas é uma canalhice previsível, anunciada há décadas, e que só existe porque o regime dos aiatolás foi engordado, sancionado, atacado, negociado, sancionado de novo, num vai e vem de política externa que mais lembra novela mexicana do que estratégia. Cada movimento gerou um contramovimento, cada contramovimento gerou uma indústria, e nessa indústria do conflito permanente prosperam os mesmos suspeitos de sempre: o complexo militar industrial, as empreiteiras de logística, os lobistas de Riad, os think tanks que vivem de seminário sobre ameaça persa. O Ormuz fechado é problema, mas o Ormuz aberto sob tutela do Pentágono também é negócio. Ganha quem fatura nos dois cenários.
Repare na coreografia, sempre a mesma desde os romanos protegendo as rotas de cereais do Egito. Cria se a dependência, depois vende se a proteção contra o risco que a dependência produziu. Era assim com a frota britânica no século dezenove escoltando o ópio para a China em nome do livre comércio, é assim agora com porta aviões americanos no Golfo em nome da estabilidade dos mercados. Muda o uniforme, muda o discurso, a estrutura é a mesma: poder armado garantindo lucro privado e cobrando o pedágio em forma de imposto, inflação e ocasionalmente em vidas dos pobres diabos que se alistaram porque era a única saída do interior do Tennessee.
Então, quando soar a fanfarra anunciando o sucesso do Projeto Liberdade, com fotos heroicas de cargueiros desfilando livres pelo estreito, lembre se de fazer a única pergunta decente diante do espetáculo. Quem pagou pela operação, quem embolsou o lucro da carga liberada, quem garantiu nova rodada de orçamento militar com a desculpa da tensão regional, e quem continuará morando num trailer no Arkansas pagando imposto para que o xeque continue dirigindo seu Bugatti em Dubai. Liberdade nenhuma. É o velho protetorado disfarçado de cruzada, com hashtag patriótica para os otários aplaudirem.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.