O roteiro é antigo e quase entediante de tão repetido. Estouram tiros num jantar de imprensa em Washington no último sábado, o pânico se espalha entre os convivas de gravata borboleta, e bastam algumas horas para que o ocupante da Casa Branca apareça na Fox News transformando o susto em projeto arquitetônico. A solução milagrosa para a violência não é nenhuma reforma de polícia, nenhuma revisão da política de armas, nenhuma autocrítica sobre o circo de segurança que custa bilhões aos pagadores de impostos americanos. É um salão de baile. Blindado. Na residência oficial. Com nível de segurança digno de bunker presidencial soviético. O rei se assustou e exige um palácio à altura do seu medo, e o povo vai pagar pelo lustre.
Há uma lógica de ferro nesse tipo de manobra, e ela não tem absolutamente nada a ver com proteger ninguém. Toda tragédia, todo susto, todo barulho de tiro vira combustível para um projeto que estava engavetado esperando momento oportuno. O salão de baile não nasceu sábado à noite, ele já estava nos planos, já tinha croqui, já tinha provavelmente empreiteira de estimação. O tiroteio apenas serviu de carona retórica, aquele empurrãozinho emocional que transforma capricho palaciano em necessidade nacional inadiável. Quem se atrever a questionar o gasto será acusado de querer o presidente morto. É a velha chantagem do medo, embrulhada em papel celofane de prudência.
Siga o dinheiro e a coisa fica menos misteriosa. Obra pública na Casa Branca significa contratos, fornecedores, consultores de segurança, arquitetos credenciados, sistemas de blindagem que custam o salário anual de cidades inteiras do interior. Cada dólar carimbado para esse salão sai do bolso de algum sujeito que trabalha na Pensilvânia rural ou no Texas profundo, gente que jamais será convidada para uma única dança naquele piso de mármore importado. O monarca eletivo embolsa o palácio, a empreiteira embolsa o lucro, e o contribuinte embolsa a fatura, agradecendo de joelhos pela honra de financiar a festa alheia.
O argumento da segurança é o curinga universal do poder moderno, a senha mágica que abre todos os cofres e silencia todas as oposições. Reis medievais ergueram fortalezas alegando proteção contra invasores que nunca apareciam, e os impostos para sustentar muralhas e fossos viraram permanentes mesmo depois que a ameaça evaporou. O mecanismo não mudou, só trocou de fantasia. Onde antes se invocava o sarraceno, hoje se invoca o atirador solitário. Onde antes se construía torre de menagem, hoje se constrói salão de gala com vidro à prova de balas. A sintaxe do privilégio é eterna, muda apenas o vocabulário com que se pede dinheiro emprestado às gerações futuras.
Repare na perversão silogística do anúncio. Houve um tiroteio num jantar, logo é preciso construir um salão de baile fortificado dentro da residência presidencial. Falta uma premissa intermediária honesta nessa equação, e ela seria a confissão de que o evento não tem relação alguma com o projeto, que a tragédia foi apenas oportunidade de comunicação, que a obra seria feita com ou sem tiros. A lógica da plebe diria que após um tiroteio se reforça segurança onde o tiroteio aconteceu. A lógica do palácio diz que após um tiroteio em qualquer lugar se constrói um palácio mais seguro para quem já mora protegido. As coisas são o que são, e este projeto é o que é, um capricho dourado vestido de pano de luto.
Sobra a pergunta que ninguém na imprensa solene de Washington terá coragem de fazer entre uma taça de champanhe e outra. Quem paga essa elegante caixa-forte? O cidadão médio, o trabalhador autônomo, o aposentado que vê a inflação corroer seus dólares mês a mês enquanto o governo emite mais papel para custear festas que ele jamais frequentará. E quem recebe? A casta de fornecedores credenciados, os consultores de segurança que fazem lobby por contratos no Capitólio, e o próprio inquilino temporário daquela mansão, que sairá dali em alguns anos deixando para o sucessor um salão construído com dinheiro suado de quem nunca foi convidado para dançar. O baile vai ser lindo. A conta é que vai ser feia.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.