Comecemos pelo fato bruto, sem maquiagem. O presidente dos Estados Unidos quer construir um salão de baile na Casa Branca, a obra está embargada por decisão judicial, e no sábado um homem tentou invadir um jantar do mesmo presidente num hotel. Três notícias que parecem soltas, mas que, lidas juntas, contam uma história só: a do governante que confunde o cargo com o palácio, o palácio com a corte, e a corte com a própria pessoa. Quando alguém precisa de salão de baile para governar, já não está governando, está reinando. E o reino, por definição, exige súditos, fornecedores e guarda pretoriana.
A primeira pergunta, a única que importa, é elementar. Quem paga? A obra não sai do bolso do mandatário, nem do bolso dos amigos que serão recebidos sob os lustres. Sai, como sempre, do contribuinte que jamais pisará naquele tapete, do sujeito que trabalha em Ohio para que um lobista beba champanhe em Washington. O dinheiro arrancado pela força do imposto vira mármore, vira cortina de seda, vira jantar de gala. E o jantar de gala vira contrato, e o contrato vira favor, e o favor vira a próxima campanha. O salão de baile não é capricho estético, é infraestrutura de poder. Versalhes não foi construído porque Luís XIV gostava de festa, foi construído para amarrar a nobreza num espaço onde o rei pudesse vigiá-la enquanto ela se distraía. Quem entende isso, entende tudo.
Agora a estrutura lógica, simples como um par de tesouras. Se todo gasto público é gasto coercitivo, e se um salão de baile não é função essencial de governo, então um salão de baile pago com recurso público é coerção sem causa legítima. A premissa maior é o confisco, a premissa menor é a futilidade, a conclusão é o roubo. Não há retórica patriótica que dissolva esse silogismo. Pode-se chamar de modernização, de restauro histórico, de legado arquitetônico, de presente à nação. Os nomes mudam, a operação é a mesma: tirar de muitos para dar a poucos, sob o pretexto de que os poucos representam os muitos.
E aí entra o episódio do hotel, que ninguém soube ler direito. Um homem tenta invadir o evento, e o noticiário trata como anomalia, como caso isolado, como falha de segurança. Não é nada disso. É consequência. Quando o governante constrói para si um andar de cima, fisicamente, simbolicamente, financeiramente, ele cria automaticamente um andar de baixo, e o andar de baixo um dia bate na porta. A história das cortes europeias é a história das portas arrombadas, das janelas escaladas, dos populares que apareceram onde não deveriam aparecer. Quanto mais ouro nas paredes, mais lanças no portão. O salão de baile e o cordão de isolamento são o mesmo orçamento, o mesmo projeto, a mesma doença.
O juiz que suspendeu a obra fez o mínimo, e o mínimo já é tratado como ousadia. Repare na inversão: o normal seria escandalizar-se com o gasto, e a exceção é escandalizar-se com a suspensão. A propaganda inverteu os papéis a tal ponto que questionar o palácio virou rebeldia, e financiá-lo virou civismo. Se todo mundo concorda que o presidente precisa de salão de baile, é porque ninguém está pensando, ou porque quem pensa foi convencido a calar. O consenso, nestes assuntos, costuma ser a assinatura do roubo bem executado.
Volto então ao começo, porque a coluna se fecha onde abriu. Quem paga e quem recebe? Paga o eleitor anônimo, paga o aposentado, paga o pequeno empresário que jamais será convidado para dançar. Recebe o empreiteiro escolhido a dedo, recebe o decorador da moda, recebe o convidado que sairá da festa com um contrato debaixo do braço, recebe o próprio anfitrião, que ganha o capital político de aparecer nos jornais cercado de candelabros. O resto, inclusive o sujeito que tentou pular a cerca do hotel, é figurante. E figurante, em peça de corte, sempre acaba expulso pelos guardas, enquanto a orquestra continua tocando como se nada tivesse acontecido.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.