Sons de tiros nas imediações de um evento em Washington, o republicano retirado às pressas pelo Serviço Secreto, e a manchete que sobra no fim do dia é a garantia de que o jantar será remarcado. O atirador, segundo o próprio, é um "doente". Pronto, diagnóstico fechado em três sílabas, sem necessidade de inquérito, sem necessidade de explicar por que, novamente, a fortaleza ambulante mais cara do planeta é furada com a frequência de um portão de chácara. A solenidade republicana resolve o caso na bula: tarja preta, próximo assunto, passem o cardápio.

Convém observar a coreografia. Quando um cidadão comum é vítima de violência urbana numa esquina qualquer de Baltimore ou de São Paulo, o mesmo aparato que se move em frações de segundo para extrair o homem público demora horas para aparecer, quando aparece. A proteção, descobrimos sempre tarde, não é um direito universal financiado pelos impostos de todos; é um privilégio escalonado, distribuído conforme o CEP do protegido e o tamanho do palanque que ele ocupa. O contribuinte de Ohio paga o colete que blinda o discurso em Washington e, na volta para casa, atravessa o estacionamento rezando para que o carro ainda esteja lá.

Há também o detalhe econômico que ninguém quer abrir. Cada incidente desses, real ou encenado, justifica o próximo orçamento. Falha de segurança nunca termina em corte de verba, termina em pedido de reforço, em contrato emergencial, em consultoria de risco, em fornecedor amigo equipando a próxima comitiva com brinquedos novos. O fracasso, na lógica burocrática, é a melhor planilha de vendas que existe; quanto pior a performance, maior o cheque do ano seguinte. Se o serviço fosse privado, o dono já teria fechado as portas; sendo monopólio coercitivo, recebe bônus por desempenho insuficiente.

O reflexo de chamar o suspeito de "doente" antes de qualquer apuração é o velho truque retórico de transformar fato político em caso clínico. Patologizar o adversário ou o agressor poupa o trabalho desconfortável de investigar motivos, redes, financiadores, conveniências. Doente não tem ideologia, doente não tem patrocinador, doente não exige CPI. É a categoria mágica que esteriliza qualquer pergunta inconveniente sobre a quem aproveita o tiro, errado ou certeiro, contra a figura pública do momento. Roma já fazia isso com seus inimigos políticos, rotulando-os de loucos antes de mandá-los para o exílio; mudou o vocabulário, a função permanece.

Note ainda a serenidade com que se anuncia que o jantar será remarcado. A frase, banal na superfície, revela a hierarquia real do espetáculo: o evento social não pode ser cancelado, apenas adiado, porque é nele que se costuram os cheques, se trocam os favores, se selam as agendas que sustentam toda a engrenagem. Tiro foi acidente de percurso, jantar é fluxo de caixa. Os doadores compraram a noite e querem o produto entregue, com ou sem balas no pano de fundo. Quem vai pagar a remarcação, o reforço de segurança, o overtime das equipes? O mesmo bobo de sempre, aquele que não foi convidado e jamais será.

No fim, a pergunta que importa nunca aparece nas manchetes. Quem ganha com o susto, quem fatura com o medo, quem reembolsa o medo com mais aparato, mais vigilância, mais lei de exceção amanhã? O cidadão recebe a foto do candidato cabisbaixo sendo amparado por seguranças, sente um arrepio cívico, pega o talão de impostos e assina mais uma vez sem ler. O jantar foi remarcado. A conta, essa, nunca é.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.