Mais um corpo no asfalto de Washington, dessa vez convenientemente próximo ao prédio que abriga o ocupante temporário do trono americano. O presidente veio a público confirmar que o sujeito tinha "histórico de violência" e uma "possível obsessão" pelo endereço. Traduzindo do oficialês para o português dos mortais: era um homem já fichado, já catalogado, já conhecido das mesmas agências federais que consomem centenas de bilhões de dólares anuais sob a promessa de antecipar exatamente esse tipo de comportamento. E ainda assim, o cidadão sacou a arma a quarteirões da residência mais monitorada do hemisfério ocidental. A burocracia da segurança nacional, esse leviatã que enxerga uma mensagem de WhatsApp de um adolescente em Iowa, simplesmente não viu o homem caminhando armado em direção à fortaleza.
Vale a pena fazer a conta fria. O Serviço Secreto consome cerca de três bilhões de dólares por ano, o FBI quase onze, a NSA outros tantos cuja cifra exata permanece misteriosamente fora do alcance do contribuinte que paga a conta. Todo esse aparato existe, supostamente, para evitar exatamente o que aconteceu: um indivíduo perigoso chegando perto demais do poder. E o que aconteceu? O indivíduo chegou. Os agentes tiveram que recorrer ao último estágio do protocolo, a bala, porque os primeiros estágios, a inteligência preventiva, a vigilância, o monitoramento dos "já fichados", falharam completamente. O serviço prestado foi o mais caro e o menos eficiente possível. Em qualquer empresa privada, o gerente seria demitido. Aqui, a resposta padrão será pedir mais orçamento.
Observe agora o silogismo que ninguém quer montar em voz alta. Se o Estado existe para proteger vidas, e se o Estado falha sistematicamente em proteger vidas comuns enquanto consegue blindar com eficiência cirúrgica as vidas de quem o comanda, então o Estado não existe para o que diz existir. Ele existe para si mesmo. A premissa é simples, a conclusão é inevitável, e por isso ninguém na imprensa palaciana vai construí-la. É mais cômodo discutir o histórico psiquiátrico do atirador morto do que perguntar por que a mesma agência que monitora ativistas pacíficos e mães contestando currículos escolares deixou passar um sujeito armado a poucos metros do presidente.
Há também a coreografia midiática, que merece nota. O atirador morre, e em horas já existe uma narrativa pronta, costurada, distribuída: histórico de violência, possível obsessão, caso isolado, sujeito perturbado. Nada de motivações políticas, nada de rede, nada de cumplicidade institucional, nada de perguntas incômodas sobre como ele conseguiu uma arma, como soube o trajeto, como driblou perímetros. O cadáver é conveniente justamente porque não fala mais. Os mortos são os melhores réus em qualquer inquérito de Estado, porque assumem todas as culpas sem direito a advogado. A história está cheia desses convenientes silêncios póstumos, do barbeiro de Sarajevo ao operador solitário de Dallas, todos com perfis prontos minutos depois do estampido.
E a moral provisória da fábula é esta. O cidadão americano médio paga impostos federais para sustentar uma estrutura de segurança que, quando precisa, protege apenas quem está dentro dos muros. O mesmo cidadão, se for assaltado na esquina de casa, será informado pela polícia local que o ressarcimento do prejuízo é problema do seguro privado que ele também paga. A proteção que ele financia compulsoriamente serve a terceiros; a proteção que efetivamente usa, ele compra de novo no mercado. Pagou duas vezes pelo mesmo direito natural à própria pele. Esse é o arranjo, e ele se sustenta porque a maioria das pessoas nunca para para perguntar quem assina o cheque e quem desconta. Quando perguntam, normalmente já estão caídas no asfalto, com uma narrativa pronta sendo escrita sobre seu próprio cadáver.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.