O Estreito de Ormuz tem, em seu ponto mais estreito, aproximadamente trinta e três quilômetros de largura. Por ali passa algo em torno de vinte por cento de todo o petróleo negociado no mundo. Quem controla esse corredor não controla apenas navios, controla preços, controla economias, controla governos. É, para usar uma imagem que dispensa poesia, a jugular do sistema energético global. E agora Donald Trump, com a solenidade característica de quem confunde megafone com argumento, declarou que a Marinha dos Estados Unidos vai bloquear qualquer embarcação que se atreva a pagar pedágio ao governo iraniano. A acusação contra Teerã é de "extorsão mundial". A ironia seria cômica se não custasse tão caro.
Porque vejamos o que está sendo dito, na sua estrutura lógica mais nua: um Estado que mantém frotas militares em todos os oceanos do planeta, que impõe sanções econômicas unilaterais como instrumento de pressão diplomática rotineira, que congela ativos estrangeiros em bancos americanos ao menor sinal de desobediência, esse Estado acusa outro de extorsão por cobrar pedágio numa via marítima que banha seu próprio litoral. É o exato equivalente de um agionaço do bairro chamar o dono da padaria de ganancioso porque ele cobra pelo pão. A diferença de escala não muda a natureza da contradição, apenas a torna mais visível para quem não está hipnotizado pela bandeira.
A história não falta com exemplos desta geometria. Impérios sempre chamam de pirataria o que os rivais fazem e de "segurança internacional" o que eles mesmos praticam. A Grã-Bretanha do século XIX patrolhava os mares com a Royal Navy e chamava isso de livre-comércio, enquanto bombardeava portos chineses para garantir o mercado do ópio. Roma cobrava impostos de passagem em todo o Mediterrâneo e chamava o mar de mare nostrum, nosso mar, com a naturalidade de quem acha que a propriedade nasce da força. O que muda de época para época é o uniforme e o vocabulário, não o mecanismo. Teerã cobra pedágio. Washington cobra obediência. Ambos estão no negócio de extrair valor de quem não tem exército suficiente para dizer não.
O ponto que toda a imprensa tratará como detalhe técnico é, na verdade, o coração da questão: a interceptação de navios comerciais no alto mar, por qualquer potência e sob qualquer pretexto, é um ato de guerra contra o comércio privado. O navio que navega carrega carga de alguém, vai para algum porto, foi contratado por um armador, transporta combustível ou grão que alimenta populações inteiras. Quando um governo decide, por decreto executivo, que nenhum navio pode pagar determinada taxa sem ser interceptado por uma frota de guerra, não é o governo iraniano que perde, é o capitão dinamarquês, o importador indiano, o consumidor japonês que vai pagar mais caro pela gasolina no fim do mês. O Estado nunca paga as contas das suas guerras de sinalização. Quem paga é sempre o mesmo.
E a pergunta que o analista sério precisa fazer, antes de qualquer outra, é esta: a quem serve, concretamente, o bloqueio de Ormuz? Não no plano das intenções declaradas, que são sempre nobres, sempre voltadas à paz e à estabilidade, mas no plano dos interesses mensuráveis. Petróleo mais caro beneficia produtores americanos que operam no Texas e na Dakota do Norte. Dependência europeia de fornecedores alternativos, leia-se americanos, aumenta. Pressão sobre economias asiáticas que dependem do Golfo Pérsico cresce. O dólar, que é a moeda dos contratos de petróleo, continua necessário. Seguir o dinheiro, neste caso como em quase todos, leva a lugares que o comunicado oficial não menciona. A retórica fala em liberdade de navegação; o balanço fala em participação de mercado.
O que mais impressiona, e deprima, nesse episódio é a recepção. Metade do planeta vai aplaudir Trump por "enfrentar o Irã". A outra metade vai condenar o "imperialismo americano". Nenhuma das duas metades vai fazer a pergunta correta, que é a pergunta sobre o princípio: tem algum Estado, qualquer Estado, o direito de usar a força para ditar a outros povos com quem eles podem comerciar e em que condições? A resposta honesta a essa pergunta constrange tanto Washington quanto Teerã, e é exatamente por isso que ela não será feita em nenhum plenário, em nenhuma assembleia, em nenhum noticiário de horário nobre. Perguntas que constrangem o poder são sempre tratadas como ingênuas ou perigosas. Raramente como o que de fato são: as únicas perguntas que importam.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.