A notícia chega embalada em papel de presente. Duas autoridades anônimas sussurram ao jornal de Nova York que os aiatolás teriam aceitado entregar o estoque de urânio enriquecido, e a Casa Branca trata o sussurro como fato consumado. Convém lembrar que diplomacia feita por vazamento controlado é o equivalente geopolítico do truque de cartas marcadas: o resultado é anunciado antes que o jogo termine, e o público bate palmas para uma vitória que ainda não existe. Quem viveu o suficiente já viu esse filme em 1994 com a Coreia do Norte, em 2003 com a Líbia, em 2015 com o próprio Irã. Todas as vezes a manchete foi triunfal, e todas as vezes a conta apareceu depois, com juros.
Pergunte ao incauto quem ganha quando uma potência regional supostamente abre mão de seu trunfo estratégico, e ele responderá, candidamente, que ganha a paz. Pergunte ao adulto, e ele responderá outra coisa. Ganham os contratistas que farão a inspeção, ganham as agências internacionais que cobrarão para fiscalizar, ganham os bancos que destravarão ativos congelados mediante taxas administrativas dignas de pequenos reinos, ganham os intermediários discretos que circulam entre Doha, Genebra e Mascate cobrando consultoria por hora. Existe uma indústria inteira da não proliferação, e ela só se sustenta enquanto houver proliferação para conter. Resolver o problema seria suicídio corporativo. Logo, ele nunca se resolve, apenas se renegocia.
O silogismo é constrangedor de tão simples. Todo acordo de desarmamento envolve contrapartida econômica. Toda contrapartida econômica significa transferência de recursos. Logo, todo acordo de desarmamento é, antes de tudo, um arranjo de redistribuição cujo lado bélico funciona como cortina de fumaça. O contribuinte americano, que jamais foi consultado sobre a generosidade com que sua carteira é aberta, descobrirá nas entrelinhas do próximo orçamento que financia simultaneamente a defesa de Israel, a contenção do Irã, a reconstrução do Iraque, e agora, pelo visto, a compensação por bondade nuclear de Teerã. O confisco fiscal tem essa elegância: ninguém lhe pergunta nada, e ainda lhe vendem a notícia como se você devesse aplaudir.
Há, evidentemente, o detalhe metafísico de que ninguém comprovou nada. O estoque pode ser entregue, escondido, dividido, replicado em laboratório secundário, transferido para parceiro complacente. Urânio enriquecido não é boi marcado a ferro quente, é matéria que se move e se camufla com facilidade desconfortável. Confiar na palavra de um regime teocrático é hábito tão antigo quanto inútil, mas convém à plateia interna do anunciante, que precisa de troféu para a próxima eleição, para a próxima coletiva, para o próximo ciclo de aprovação. A política externa virou subproduto da política doméstica, e o cidadão comum, este animal paciente, paga a fatura das duas.
O hábito de chamar de paz aquilo que é apenas pausa contratual já adoeceu nações inteiras. Quando o império romano negociava com os partas, também voltava a Roma com manchetes triunfais, e também voltava com cofres mais leves. A diferença é que ao menos os romanos sabiam que estavam pagando tributo, e davam ao gesto o nome correto. A modernidade é menos honesta: chama tributo de ajuda, chama propina de incentivo, chama submissão de diálogo construtivo. E o povo, que custeia tudo isso com o suor que vira imposto que vira dólar que vira diplomacia, segue convencido de que assistiu a uma vitória.
A pergunta, então, repete-se com a teimosia das verdades incômodas. Quem paga e quem recebe? Paga o contribuinte que nunca foi ouvido. Recebe a burocracia internacional que vive de monitorar o impossível, recebe o regime que vende a mesma promessa pela quarta vez, recebe o político que precisa de manchete antes da próxima pesquisa. Sobra para o povo, como sempre sobrou, a tarefa nobilíssima de bater palmas e calar a boca.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.