Raramente um chefe de Estado entrega o jogo com tamanha franqueza. Disse o homem, com aquele sorriso de quem acha que ninguém está prestando atenção, que o Irã não quer o estreito fechado, e que a região está fechada justamente porque assim Washington consegue um acordo. Leia de novo, com calma. O bloqueio de uma das artérias mais vitais do comércio mundial, por onde escorre perto de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta, é descrito como peça de tabuleiro, alavanca de barganha, instrumento de chantagem civilizada. Não há inimigo, há conveniência. Não há crise, há coreografia.

Quando um presidente admite que a tensão é útil, está admitindo também que a paz é pouco rentável. O mercado do medo é um dos mais lucrativos que a humanidade já inventou, perde apenas para o mercado da salvação. E os dois funcionam pelo mesmo mecanismo antigo: alguém precisa estar em perigo para que outro alguém venda proteção. O Pentágono não é instituição caritativa, é balcão. Cada porta fechada no Golfo reabre contratos em Arlington, cada míssil que cruza o céu do Oriente Médio é linha de receita em um relatório trimestral de empresa listada em Nova York. O sangue vira ação, a ação vira dividendo, o dividendo vira campanha eleitoral.

E quem paga o pedágio dessa encenação? O sujeito que encheu o tanque ontem no Brasil, sem nunca ter ouvido falar em Hormuz, pagando um prêmio de risco sobre uma guerra que não é dele, negociada por gente que não conhece, em nome de interesses que nenhum parlamento votou. O barril sobe, o frete sobe, o pão sobe, o frango sobe, o aluguel sobe. A inflação importada é o imposto mais perfeito já concebido, porque não precisa de lei, não precisa de debate, não precisa sequer ser nomeada. Chega pelo correio, embrulhada como infortúnio global, enquanto o infortúnio tem CEP, tem endereço, tem conta bancária.

O argumento de que tudo isso serve à segurança internacional tropeça na própria frase presidencial. Se o estreito está fechado para forçar um acordo, a segurança internacional é refém, não beneficiária, do arranjo. A lógica é direta e não admite desvio: se A fecha para obrigar B a ceder, A é o agente do fechamento, não sua vítima. Os diplomatas de gravata podem redigir mil comunicados, os jornais podem imprimir mil análises equilibradas, mas a premissa foi confessada em voz alta, diante das câmeras, e dela não há fuga retórica. O roteiro da vítima armada até os dentes é velho como o imperador romano que incendiava aldeias para depois vender trigo aos sobreviventes.

Sempre foi assim. Toda grande potência que se preze precisa de um gargalo estratégico, um Bósforo, um Suez, um Panamá, um Malaca, um Hormuz, para lembrar ao resto do mundo quem controla a torneira. O discurso muda, o figurino muda, a língua muda, a mecânica é idêntica desde os mercadores fenícios cobrando passagem em seus estreitos. O Estado moderno apenas aprimorou a técnica: cobra o pedágio em forma de inflação, de prêmio de risco, de seguro de navegação, de contrato militar, e ainda convence o pedagiado a aplaudir a cobrança em nome da estabilidade. É o golpe do século, repetido todo século.

Então fica a pergunta que nenhum telejornal fará, porque telejornal vive de anunciante e anunciante vive da mesma festa: quem lucra com o estreito fechado, quem lucra com o estreito aberto, e por que o trabalhador comum é sempre o único obrigado a custear as duas versões do espetáculo? Enquanto a resposta honesta não vier, siga desconfiando de toda manchete que fala em crise internacional como se fosse meteorologia. Crise internacional não cai do céu. Tem autor, tem beneficiário, tem fatura, e a fatura, como sempre, chega no seu nome.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.