Sábado à noite, Washington Hilton, jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca. O presidente e a primeira-dama estão à mesa, cercados pela nata do jornalismo americano enfiada em smoking alugado, quando se ouvem disparos do lado de fora. O Serviço Secreto faz o que sabe fazer, retira o casal às pressas, o salão respira fundo, o champanhe esquenta e a noite segue. A imprensa registra o episódio com aquele tom grave de quem testemunhou a história, esquecendo de mencionar o detalhe mais cômico de toda a cena, que é a própria existência daquele jantar.

Pense no arranjo. Os mesmos repórteres que durante o ano inteiro deveriam estar atrás dos rastros do poder, farejando contratos, cruzando emendas, perseguindo o dinheiro do contribuinte que evapora em programas inúteis, esses mesmos repórteres se reúnem uma vez por ano para jantar com os fiscalizados, rir das piadas dos fiscalizados, posar para fotos com os fiscalizados e premiar uns aos outros pela coragem de fiscalizar. É como se o auditor levasse a esposa para o churrasco do auditado e ainda levasse uma sobremesa. A independência da imprensa, naquela mesa, tem o mesmo peso da panqueca de salmão defumado que a acompanha.

O fato concreto é simples e a lógica é implacável. Se o trabalho do jornalista é vigiar o poder, e se o poder financia direta ou indiretamente o ambiente em que esse jornalista circula, então o jornalista que aceita a mesa do poder não está vigiando coisa alguma, está chancelando. Não há terceira hipótese. As coisas são o que são, não o que a narrativa quer que sejam, e aquele jantar é, em essência, uma cerimônia de cumplicidade vestida de gala. A República Romana tinha banquetes parecidos no fim, com senadores e patronos brindando à virtude cívica enquanto repartiam por baixo da mesa as províncias e os impostos.

Siga o dinheiro e o quadro fica ainda mais constrangedor. Quem paga a conta de tudo aquilo? Os patrocinadores corporativos, é claro, gigantes de mídia e tecnologia que vivem de regulação favorável, de incentivo fiscal, de isenção aqui, de exceção ali, de uma palavrinha amiga no Congresso quando o assunto é direito autoral, dado pessoal, espectro de rádio, contrato federal. Quem recebe? Os jornalistas em forma de prestígio, os políticos em forma de cobertura amena, os patrocinadores em forma de proximidade comprada a peso de canapé. O contribuinte, esse, paga duas vezes, no imposto que sustenta o aparato e na conta inflacionada do produto da empresa que comprou a mesa. E ainda aplaude.

Os tiros do lado de fora foram apenas o lembrete grosseiro de que existe um mundo real para além do salão. Lá fora há gente sendo baleada, há cidades em decomposição, há um país inteiro convencido de que a política deixou de servi-lo, e dentro do salão a tribo se diverte trocando troféus pela bravura de cobrir o que ela própria ajuda a maquiar. Um rei nu sempre é cômico, mas um rei nu cercado de cortesãos vestidos de smoking, fingindo solenidade enquanto a plateia ri, isso já é farsa de qualidade superior. Faltou apenas alguém apontar.

No fim das contas, o susto será esquecido em quarenta e oito horas, o caso vira anedota, e ano que vem o jantar acontece de novo, com novos patrocinadores, novos prêmios, novos discursos sobre a sagrada missão de informar. Enquanto a imprensa achar que pertence à mesma classe que deveria fiscalizar, nada do que sair dali tem o direito de se chamar jornalismo. Tem outros nomes, alguns deles mais antigos, todos menos lisonjeiros. E a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta continua de pé, sem resposta confortável: quem paga e quem recebe?

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.