Donald Trump mandou a Marinha americana se posicionar no Estreito de Ormuz, aquela faixa de água de pouco mais de trinta quilômetros de largura que separa o Golfo Pérsico do Mar da Arábia e por onde escoa, diariamente, uma fatia considerável da energia que move a civilização industrial. A Guarda Revolucionária do Irã respondeu com o sangue-frio de quem mora na margem oposta há quarenta anos e já viu esse filme várias vezes, avisando que tem o tráfego sob controle total e que qualquer tentativa de desafio terminaria em captura. Dois impérios de egos distintos, um oceânico e um continental, medindo forças num corredor de água onde a física naval favorece quem atira mísseis da costa, não quem manda porta-aviões de longe. O resultado das negociações foi o esperado por qualquer pessoa que entende que Estado não negocia, ele apenas adia ou antecipa a coerção.
A lógica da situação é mais antiga do que a República Islâmica e mais antiga do que os Estados Unidos. Quando uma potência externa tenta bloquear o ponto de estrangulamento pelo qual passa a riqueza de uma região inteira, os que vivem dessa riqueza, sejam aliados ou inimigos, têm o incentivo perfeito para resistir. Os britânicos tentaram dominar cada estreito, cada cabo, cada passagem estratégica do planeta durante dois séculos, e conseguiram, enquanto tinham superioridade naval absoluta e vontade política de pagar o preço em sangue e libras esterlinas. Washington tem os navios, mas faz décadas que não tem a vontade, e o Irã sabe disso melhor do que o Congresso americano. Ormuz bloqueado significa petróleo escasso, petróleo escasso significa preço disparado, preço disparado significa eleitorado furioso, e eleitorado furioso significa fim de mandato. A equação é simples demais para ser ignorada, e foi ignorada assim mesmo.
Siga o dinheiro quando a diplomacia não fizer sentido. O fracasso das negociações não surpreende ninguém que entenda o que o Irã quer e o que os Estados Unidos podem oferecer sem se contradizer fatalmente. Teerã quer o levantamento de sanções que estrangulam sua economia há décadas, quer reconhecimento como potência regional legítima, e quer que Washington pare de financiar seus adversários regionais. Washington quer que o Irã abandone o programa nuclear, cesse o apoio a grupos armados no Oriente Médio e, implicitamente, mude de regime para alguma coisa mais palatável ao gosto globalista. Nenhuma das duas partes tem o que a outra aceita. Chamar isso de negociação fracassada é eufemismo caridoso; foi a encenação de uma conversa que os dois lados sabiam que não ia a lugar nenhum, porque os interesses são estruturalmente incompatíveis e nenhum lado está disposto a recuar no que importa de verdade.
O bloqueio naval, se levado a sério, seria um ato de guerra econômica contra não apenas o Irã, mas contra qualquer nação que dependa do petróleo que passa por ali, inclusive aliados americanos no Japão, na Coreia do Sul e na Europa. Bloquear Ormuz para pressionar Teerã é como incendiar a cozinha para expulsar um rato; você pode até acertar o rato, mas vai passar fome junto com ele. A história tem episódios semelhantes de potências que tentaram usar o controle marítimo como alavanca política e descobriram que as consequências econômicas retroalimentavam sobre elas mesmas antes de domar o adversário. O bloqueio de Berlim em 1948 funcionou porque era logisticamente contornável por via aérea; Ormuz não tem ponte aérea para petróleo. Tankers voadores ainda não foram inventados, por mais que o orçamento do Pentágono inspire esperança nos contratados de defesa.
O que está em jogo aqui não é apenas o estreito, nem apenas o Irã, nem apenas o petróleo. É a credibilidade da capacidade americana de traduzir ameaça em ação sem destruir o que pretende proteger. Toda ameaça que não é cumprida transforma o ameaçador em figura cômica. Toda ameaça cumprida a custo desproporcional transforma o ameaçador em figura trágica. Washington está presa entre a comédia e a tragédia, oscilando entre as duas a cada ciclo eleitoral, enquanto Teerã, com toda a sua brutalidade doméstica e sua retórica inflamada, ao menos tem a vantagem de ser consistente nos próprios objetivos. Consistência, mesmo a consistência de um regime teocrático-militar, é uma forma de força que a incoerência democrática raramente consegue imitar. Não é um elogio ao Irã; é um diagnóstico da paralisia ocidental.
No fim das contas, o Estreito de Ormuz vai continuar aberto ou vai fechar por razões que nenhum comunicado de imprensa do Pentágono vai capturar com fidelidade. Ou os dois lados chegam a um acordo que nenhum deles consegue vender para a própria base, ou o preço do petróleo vai fazer o trabalho que a diplomacia não fez. Mercados são implacáveis exatamente porque não têm ego a defender nem base eleitoral a satisfazer. Quando um barril de petróleo custar o suficiente para tornar a guerra economicamente insustentável para todos os envolvidos, alguém vai ligar para alguém e pedir um número de conta bancária em vez de um bloqueio naval. Sempre foi assim. O Estado ameaça, o mercado decide, e o historiador escreve a versão que o vencedor compra.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.