O Estreito de Ormuz tem vinte e um quilômetros em seu ponto mais estreito. Por ali passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. Não é um detalhe geográfico, é a jugular da economia industrial moderna, e quem coloca a mão nessa veia está segurando uma faca no pescoço de todo mundo ao mesmo tempo, inclusive do próprio punho que empunha o cabo. Quando Donald Trump anunciou o bloqueio naval dessa passagem numa publicação de rede social, no domingo de manhã, enquanto o mundo dormia ou tomava café, ele não estava fazendo diplomacia. Estava fazendo espetáculo. A diferença entre os dois é que a diplomacia tenta resolver conflitos; o espetáculo precisa que eles continuem.
O fracasso das negociações em Islamabad não surpreende quem acompanha o padrão. Toda vez que Washington e Teerã sentam à mesa, alguém no processo tem interesse ativo em que a mesa vire. A indústria bélica americana não cobra por acordos de paz; cobra por contratos de fornecimento, por sistemas de mísseis, por munição, por logística, por reconstrução pós-conflito. A guerra não é o fracasso da política, nos nossos tempos, ela é frequentemente o produto mais lucrativo da política, e o Estado, qualquer Estado, tem a vocação natural de transformar a violência em fonte de receita. Siga o dinheiro e você acha a motivação; siga a motivação e você entende por que a diplomacia em Islamabad estava condenada antes de começar.
Existe uma tradição republicana, cultivada com muito sangue ao longo de séculos, segundo a qual nenhum governante sozinho pode levar um país à guerra. Os romanos tinham o Senado. Os ingleses tinham o Parlamento. Os americanos escreveram isso na Constituição com letras grandes o suficiente para que até um presidente entendesse. A declaração de guerra é prerrogativa do Congresso, não do executivo, e a razão é simples até parecer óbvia: quem declara guerra não é quem vai morrer nela. Separe a decisão de quem arca com as consequências e você vai ter guerras constantes, porque o custo nunca recai sobre quem assina a ordem. Trump não declarou guerra formalmente. Melhor ainda: ele ameaçou de inferno uma nação soberana num post de rede social, o que juridicamente não é nada e politicamente é tudo, porque cria o fato antes da lei e força a reação antes do debate.
O Irã não é a Suíça. Não vamos fingir que o regime dos aiatolás é um governo de santos perseguidos pela crueldade americana. Mas a questão não é a natureza do regime iraniano, a questão é o método. Quando se justifica qualquer ação contra um inimigo ruim o suficiente, você não está defendendo a liberdade, você está apenas escolhendo o seu tirano favorito. A história dos últimos cem anos está cheia de exemplos de nações que foram "libertadas" com intervenção militar e terminaram piores do que estavam antes, mais pobres, mais instáveis, mais ressentidas, mais férteis para o próximo extremismo. O Iraque foi libertado do Saddam. O Afeganistão foi libertado do Talibã. O Talibã voltou e o Iraque virou berço do Estado Islâmico. Alguém quer propor uma hipótese alternativa ou vamos continuar chamando de vitória qualquer coisa que não pareça, imediatamente, uma derrota?
Um bloqueio naval é um ato de guerra pela definição clássica do direito internacional, e o Estreito de Ormuz não é águas americanas, é um corredor de passagem internacional. Bloquear o Estreito não afeta apenas o Irã, afeta China, Índia, Japão, Europa, afeta qualquer nação que importe petróleo por aquele canal, que é praticamente toda a civilização industrial. Trump está, em tese, declarando guerra econômica ao planeta para pressionar um único país, o que seria um ato de genialidade estratégica caso houvesse alguma evidência de que a equação termina em paz. Não há. Pressão máxima sem oferta de saída digna não produz capitulação, produz desespero, e nações desesperadas fazem coisas que países estáveis nunca fariam. Isso não é teoria, é o registro de toda crise internacional dos últimos duzentos anos.
O contribuinte americano vai pagar o combustível dos navios de guerra, o salário dos marinheiros, os mísseis que eventualmente forem disparados e a conta hospitalar dos feridos. O contribuinte iraniano vai pagar o equivalente do outro lado. Os cidadãos comuns dos países importadores de petróleo vão pagar no preço da gasolina, no preço do frete, no preço de tudo que se move por combustível fóssil, que é praticamente tudo. Os únicos que não pagam são os que decidiram. Essa assimetria entre quem decide e quem paga é a definição técnica de tirania, independente de quantos votos o tirano tenha recebido.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.