O roteiro é tão antigo que dá preguiça de assistir. Houve uma tentativa de ataque, o aparato de segurança capturou um suspeito, e poucas horas depois o presidente americano já estava nas redes sociais parabenizando o próprio serviço secreto e exibindo a foto do detido, um morador da Califórnia descrito por ele mesmo como alguém que "está muito doente". Note a sequência: ameaça, captura, foto, aplauso, narrativa pronta. O espetáculo se monta com a eficiência de uma linha de produção, e o público engole o pacote sem ler o rótulo.

Convém lembrar que esse mesmo serviço secreto, agora alvo de tapinhas nas costas presidenciais, é a corporação que vem acumulando falhas constrangedoras nos últimos anos, com episódios anteriores em que o próprio Trump quase foi alvejado por circunstâncias que envergonhariam qualquer manual de proteção. Mas a memória do eleitor médio é curta, e o político profissional sabe disso. Ele não distribui elogios para premiar competência; distribui elogios para apagar o histórico de incompetência. É a velha técnica do imperador romano que pagava o pão e o circo no dia seguinte à derrota militar, esperando que a multidão confundisse barriga cheia com vitória estratégica.

Repare no detalhe semântico: o suspeito "está muito doente". Tradução cuidadosa do truque retórico: indivíduo isolado, problema de saúde mental, nada estrutural, nada institucional, nada que questione a segurança pública sob a tutela do Estado. O ataque vira anedota psiquiátrica, a falha sistêmica vira caso clínico, e a responsabilidade da máquina pública evapora como neblina ao sol. Se o sujeito é um doente solitário da Califórnia, ninguém precisa explicar por que um doente solitário consegue chegar perto do homem mais protegido do planeta. A lógica, quando aplicada com honestidade, costuma ser inconveniente para os palanques.

E aqui entra a pergunta que ninguém quer fazer no horário nobre: quem paga essa festa? O contribuinte americano, evidentemente, financia um aparato de segurança bilionário que falha, depois é elogiado pela falha contornada, e ainda serve de cenário para o politico postar fotos triunfais. A conta vem em dólar suado, em imposto retido, em inflação silenciosa que corrói o salário de quem nunca pisou na Casa Branca. Quem recebe? O presidente, que converte cada incidente em capital eleitoral; a burocracia de segurança, que justifica orçamento crescente; e a imprensa cortesã, que vende manchete e fecha o ciclo do espetáculo.

Há uma diferença abissal entre proteger uma autoridade e transformar essa proteção em palco de marketing pessoal. A primeira é função republicana mínima; a segunda é o uso particular de bem público, prática tão antiga quanto os generais que voltavam a Roma desfilando prisioneiros acorrentados para impressionar a plebe. Mudaram as roupas, mudaram as redes, não mudou o vício. O detido vira troféu, o servidor vira súdito condecorado, e o cidadão pagante vira plateia obrigatória de um show que ele nem pediu para ver, mas custeia integralmente.

O verdadeiro escândalo não é o doente da Califórnia. É a naturalidade com que se aceita que um chefe de governo exiba prisioneiro como caçador exibe pele de onça na parede. Toda vez que o poder se autocelebra, alguém perdeu liberdade, dinheiro ou dignidade no processo, e quase sempre é o mesmo alguém: aquele que paga e nunca aparece na foto. A pergunta volta, teimosa, como deve voltar sempre: quem paga e quem recebe? Enquanto a resposta continuar sendo a mesma, o teatro continuará em cartaz, com elenco trocado e enredo idêntico.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.