O fato concreto é este: o presidente dos Estados Unidos abandonou o ritual engessado da etiqueta diplomática para cumprimentar um mineiro que acabara de apagar as luzes de um russo dentro de uma gaiola de arame, na frente de milhares de pessoas, numa noite de sábado em Miami. Paulo Borrachinha nocauteou Azamat Murzakanov no UFC 327, e Donald Trump, sentado entre os grandes do ringside com a desenvoltura de quem nunca aprendeu a ter vergonha de gostar do que gosta, fez questão de parabenizá-lo. Protocolo quebrado. Manchete feita. E o mundo inteiro tratou isso como escândalo ou curiosidade, quando deveria tratar como sintoma.

Há algo de profundamente revelador na cena. O octógono é um dos últimos espaços da vida pública onde a realidade não negocia com a narrativa. Não existe coletivo que bata por você, não existe comissão que vote a seu favor, não existe decreto que suspenda a lei da gravidade quando você leva um direto no queixo. Dois homens entram, um sai. A brutalidade do critério é sua maior virtude: o resultado é inegável, inapeável e imediato. Numa época em que governos inteiros são construídos sobre a arte de postergar consequências, de socializar prejuízos e privatizar narrativas, a honestidade metafísica do nocaute é quase subversiva. Borrachinha ganhou porque foi melhor. Ponto. O russo perdeu porque foi pior. Ponto. Nenhuma agência de fomento vai corrigir esse resultado.

Agora observe o contraste com o que costumamos chamar de "alta política". O mesmo ambiente que produziu comunicados conjuntos sobre "governança climática inclusiva", que financiou com dinheiro público congressos internacionais onde pessoas bem alimentadas debatem a fome dos outros, que construiu burocracia sobre burocracia até transformar a prestação de serviços básicos numa odisseia kafkiana, esse mesmo ambiente olhou para Trump parabenizar um atleta e achou que o problema era o protocolo. O protocolo. Como se o problema do mundo fosse a falta de cerimônia, e não a falta de resultado. Imperadores romanos em decadência também eram muito cuidadosos com o protocolo. Tinham gramáticos para isso. A cidade caiu do mesmo jeito.

Trump, com todos os seus defeitos catalogados e amplamente divulgados pela imprensa que o odeia com a consistência que só o amor verdadeiro costuma ter, entende uma coisa que seus adversários fingem não entender: o eleitorado que assiste ao UFC não é o eleitorado que lê editoriais de jornal achando que está se informando. É o eleitorado que trabalha com as mãos, que paga imposto sem entender por quê, que vê o governo como uma entidade que aparece para cobrar e some quando é preciso, que reconhece no lutador algo que a política há muito deixou de oferecer, que é a imagem de alguém que só tem o que conquistou. Não é populismo reconhecer isso. É apenas ler o mapa sem os óculos ideológicos que distorcem a paisagem.

E o Brasil, nessa história? O Brasil aparece como pano de fundo acidental de uma cena que poderia ter sido protagonizada por qualquer nação que ainda produz homens capazes de subir numa gaiola e provar alguma coisa. Borrachinha não representa o Brasil oficial, o Brasil das estatais, das cotas, dos editais de cultura que financiam instalações artísticas que ninguém pede e ninguém entende. Ele representa o Brasil que acorda cedo, que treina quando dói, que viaja pra fora com a bandeira nas costas sem pedir licença a ninguém. É irônico que esse Brasil ganhe mais atenção internacional numa noite de nocaute do que em anos de "diplomacia ativa e altiva". Mas a ironia é o idioma da realidade quando a realidade decide desafiar o discurso oficial.

O protocolo que Trump quebrou não era um protocolo de etiqueta. Era o protocolo tácito que diz que líderes políticos devem fingir que só se importam com o que é sério, sofisticado e, preferencialmente, incompreensível. Quebrar esse protocolo e aplaudir um nocaute não é um gesto menor. É a afirmação de que mérito ainda existe, de que é possível reconhecê-lo quando ele aparece, e de que a grandeza não mora exclusivamente nos palácios onde se discute a grandeza. Às vezes ela mora no giro de quadril de um mineiro que mandou um russo russo para o chão de Miami numa noite de sábado. O resto é retórica de assessoria de imprensa.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.