O cenário é digno de farsa palaciana. O homem mais poderoso do planeta, com o aparato bélico mais caro da história humana sob seu comando, gasta as horas de uma manhã qualquer rolando o feed da própria rede social para republicar mensagens de admiradores que o coroam como o maior presidente que já existiu. Não é metáfora, é literal. E acontece exatamente na semana em que as pesquisas mostram que metade do país, quando perguntada se o sujeito está fazendo um bom trabalho, responde com um sonoro não. Há algo de profundamente revelador nesse gesto: o poderoso só precisa do espelho quando o espelho começa a mentir menos do que a realidade.

Existe uma lógica de ferro aqui, e ela não é nova. Imperadores romanos em decadência mandavam cunhar moedas com seus rostos idealizados justamente quando o império rachava nas bordas. Reis franceses encomendavam retratos cada vez mais grandiosos à medida que o tesouro esvaziava e o povo afiava as forquilhas. A propaganda inflaciona na exata proporção em que a substância evapora. Se o governante fosse de fato amado, não precisaria republicar o amor. Bastaria fazer o trabalho. O barulho da autopromoção é sempre inversamente proporcional ao resultado entregue. Quem produz, mostra o produto. Quem não produz, mostra a foto de si mesmo segurando um produto que nunca existiu.

E aqui vale a pergunta que nenhum comentarista de TV faz, porque é desconfortável: quem paga essa encenação? O contribuinte americano, óbvio. Cada minuto que o ocupante do cargo gasta administrando o próprio culto à personalidade é minuto pago pelo trabalhador de Ohio que acorda às cinco da manhã e nunca vai pisar num clube de golfe. O salário presidencial, a estrutura de comunicação, os assessores que monitoram likes, os jatos, a segurança, tudo isso é extraído coercivamente de quem produz para sustentar quem performa. O político vende a ilusão de que serve ao povo enquanto o povo serve à manutenção do palco onde o político se aplaude. É o golpe mais antigo do mundo, e ainda funciona porque a propaganda é a única indústria estatal genuinamente eficiente.

Note também a perfeição cínica do mecanismo. Ele não escreve "eu sou o melhor". Ele republica alguém que escreveu isso. A camada de mediação serve como álibi moral: não fui eu que disse, foi o povo. Só que o povo, nesse caso, é um avatar anônimo com trezentos seguidores e bandeira na bio. A vontade popular foi terceirizada para um perfil que poderia perfeitamente ser administrado pela própria equipe. É a democracia digital reduzida a teatro de marionetes onde o ventríloquo finge que a boca de madeira tem opinião própria. Julgue o homem pelos atos, não pelas palavras dos outros que ele escolhe amplificar. O ato aqui é vaidade pura, e vaidade no comando do botão nuclear não é fofura, é diagnóstico.

O detalhe mais sombrio da história, no entanto, não é a vaidade individual. É o que ela revela sobre o regime. Toda vez que um líder precisa republicar elogios a si mesmo, está confessando duas coisas simultaneamente: que sabe que está perdendo a narrativa, e que acredita que a narrativa importa mais do que a realidade. É o pensamento mágico aplicado ao governo. Se eu repetir mil vezes que sou o melhor, talvez a inflação ceda, talvez os empregos voltem, talvez o déficit suma. Não vão. A realidade é teimosa, ela tem o péssimo costume de ser exatamente o que é, independente do número de reposts. E quando o choque entre o slogan e o boleto chega, e ele sempre chega, a multidão que aplaudia ontem é a primeira a perguntar onde foi parar o dinheiro.

A pergunta, portanto, permanece intacta, sempre a mesma, eterna como imposto: quem paga e quem recebe? Paga o cidadão que financia a estrutura inteira do espetáculo com cada centavo retirado do contracheque. Recebe o vaidoso que transforma o cargo público em terapia narcísica subsidiada. Enquanto o teatro tiver plateia obrigatória, e o ingresso for cobrado na ponta da baioneta fiscal, a peça continua em cartaz. O dia em que pagar for facultativo, descobriremos rapidamente quantos presidentes melhores de todos os tempos sobram no palco.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.