O anúncio veio pela rede social do próprio presidente, na noite de domingo, com aquela solenidade típica de quem confunde tuíte com tratado de Vestfália. O acordo de paz, garante ele, deixa "muito claramente" estabelecido que o Irã não terá arma nuclear. A frase é curta, redonda, vendável. Só esquece de explicar o detalhe trivial de quem vai assinar o cheque para sustentar essa cláusula, por quanto tempo, e em troca de qual contrapartida invisível embutida nas entrelinhas que ninguém vai ler.

Há uma regra antiga, quase fastidiosa de tão óbvia, que vale para qualquer pacto entre governos: o texto público é a fachada, o anexo confidencial é o negócio. Quando um chefe de Estado proclama que "a maior parte do acordo trata" de impedir uma ogiva persa, o ouvido treinado já entende que a parte menor, justamente a que importa, trata de outra coisa. Trata de bases reabertas no Golfo, de pacotes de armamento empurrados para os vizinhos sunitas, de garantias de compra de petróleo a preço político, de bancos centrais que aceitarão títulos americanos como se fossem ouro. A bomba que não vai existir é o álibi. O orçamento que vai existir é o produto.

Convém recordar como esses arranjos costumam terminar. Em 2015, houve um acordo parecido, vendido com a mesma retórica luminosa, premiado com Nobel moral nos editoriais europeus. Bastaram três anos para que o sucessor rasgasse o papel, sancionasse o regime, e os mesmos analistas que aplaudiam passassem a aplaudir o contrário, sem corar. O contribuinte americano financiou a euforia e financiou a ressaca. Os ayatolás, esses, seguiram enriquecendo urânio na cadência que lhes convinha, porque ditadura teocrática tem uma vantagem competitiva que república não tem: não precisa renovar mandato.

Siga o dinheiro e o nevoeiro se dissipa. Quem ganha com a paz anunciada? Os fornecedores do Pentágono, que vendem o escudo. Os lobistas de Riad e Tel Aviv, que vendem o medo. Os bancos de investimento, que vendem a reconstrução prometida em Teerã assim que as sanções afrouxarem. Os think tanks de Washington, que vendem o relatório sobre o relatório. Quem paga? O sujeito que acorda às cinco da manhã no Ohio, no Texas, no interior do Brasil também, porque a fatura dessa diplomacia chega via dólar forte, juro alto e petróleo precificado em moeda que ele não imprime. A conta é socializada, o lucro é particular, e o aplauso é distribuído gratuitamente nos telejornais.

O silogismo é grosseiro de tão simples. Todo governo que promete impedir uma guerra precisa de orçamento para a possibilidade dela. Todo orçamento militar inflado encontra inimigo à altura, sob pena de virar piada contábil. Logo, a paz prometida hoje é a pré venda da próxima crise, embalada em papel celofane bipartidário. Não é cinismo afirmar isso, é aritmética. Cinismo é fingir que a história não se repete porque agora o presidente posta em letras maiúsculas.

Resta a velha pergunta que devia abrir todo telejornal e fechar toda coletiva: quem paga e quem recebe? Enquanto a resposta for "paga o trabalhador, recebe o contratante do governo", o conteúdo do acordo é detalhe técnico. A música é sempre a mesma, mudam apenas os instrumentistas e o idioma da partitura. E o público, esse, continua comprando ingresso para assistir ao próprio enterro, convencido de que está indo ao teatro.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.