O Tribunal Superior Eleitoral anunciou, com a solenidade de quem faz um favor ao povo, que o prazo para regularização do título de eleitor se encerra em 6 de maio. O cadastro eleitoral será fechado antes das Eleições 2026, e o tribunal orienta os cidadãos a não deixarem para a última hora. Leia-se: o aparato burocrático que administra a liturgia democrática está nervoso com a possibilidade de que uma parcela significativa da população simplesmente não apareça para renovar a procuração que autoriza desconhecidos a disporem de seu salário, de sua propriedade e de sua liberdade. A campanha institucional vem embalada naquela retórica cívica que aprendemos a engolir desde o primário, a de que votar é um dever, uma conquista, quase um sacramento. Ninguém no TSE, evidentemente, vai explicar por que o sujeito que não quer participar da festa precisa justificar sua ausência sob pena de ter a vida civil emperrada.
Pare um instante e observe a mecânica da coisa. O governo cobra impostos de você o ano inteiro sem pedir licença. Regula o que você compra, o que você vende, o que você come, onde você constrói, como você educa seus filhos. Mas de dois em dois anos ele precisa de algo que não consegue simplesmente tomar à força: a aparência de legitimidade. É para isso que serve a eleição. Não para escolher quem vai governar melhor, porque a máquina administrativa permanece a mesma independentemente de quem sente na cadeira, mas para que o sistema possa dizer, com a mão no peito e o queixo erguido, que "o povo escolheu". O título regularizado é o ingresso para esse teatro. Sem plateia suficiente, o espetáculo perde credibilidade. E um Estado sem credibilidade é apenas um bando armado com CNPJ.
Há algo de profundamente revelador no fato de que o voto no Brasil é obrigatório. Pense nisso com a frieza que o assunto merece. Se a democracia é tão maravilhosa, tão evidentemente superior, tão desejável, por que é preciso obrigar as pessoas a participarem dela? Nenhuma padaria precisa de lei para forçar o cliente a comprar pão. Nenhum médico competente precisa de decreto para atrair pacientes. O produto que precisa de coerção para ser consumido não é produto, é imposição. O voto obrigatório é a confissão involuntária de que, deixado à própria escolha, o cidadão médio preferiria cuidar da própria vida a escolher qual facção da classe política vai administrar o saque pelos próximos quatro anos. O TSE sabe disso. A campanha de regularização não é altruísmo; é sobrevivência institucional.
Siga o dinheiro, como sempre. A Justiça Eleitoral brasileira custa bilhões por ano ao contribuinte. São tribunais regionais em cada estado, milhares de funcionários, infraestrutura de urnas, logística de transporte, campanhas publicitárias, sistemas de informática, tudo sustentado por quem acorda cedo e paga imposto sobre o café da manhã. E o que o contribuinte recebe em troca desse investimento colossal? O direito, tornado dever, de escolher entre candidatos financiados por empreiteiras, sindicalistas e fundos partidários que, por sua vez, também são abastecidos com dinheiro público via fundo eleitoral. O ciclo é de uma perfeição quase cômica: você paga o imposto que financia o fundo que financia a campanha do sujeito que, uma vez eleito, vai votar para aumentar o imposto que financia o fundo. Se um vigarista de esquina montasse esse esquema, chamaria cadeia. Quando o Estado monta, chama democracia.
A campanha do TSE, portanto, não é um serviço ao cidadão. É um serviço ao próprio Estado. Cada título regularizado é uma assinatura a mais no contrato social que ninguém leu, ninguém assinou voluntariamente e do qual ninguém consegue sair sem pagar multa, perder o passaporte ou ter o nome sujo. O prazo de 6 de maio não é um lembrete amigável; é um ultimato revestido de gentileza. Regularize-se ou arque com as consequências. Participe da engrenagem ou ela te esmaga. O discurso mudou, a embalagem ficou mais bonita, mas o mecanismo é o mesmo de sempre: obediência travestida de cidadania, confisco travestido de contribuição, submissão travestida de participação. Quem paga? Você. Quem recebe? Todo mundo que vive da máquina que seu voto mantém de pé.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.