A nota do governo turco chegou com toda a solenidade que Ancara consegue reunir quando quer parecer o árbitro moral do planeta: Benjamin Netanyahu é "o Hitler do nosso tempo", e a razão declarada é que o premier israelense estaria sabotando as negociações de paz no Oriente Médio. Tudo muito indignado, muito contundente, muito fotogênico para os noticiários europeus que adoram um villano com sobrenome judeu. O problema, como sempre acontece nesse teatro, está na lógica anterior ao espetáculo. Antes de usar Hitler como munição diplomática, seria razoável perguntar quem está puxando o gatilho, de onde ele atira e com que autoridade moral.

Recep Tayyip Erdogan governa a Turquia desde 2003. Nesse intervalo, o país prendeu mais jornalistas do que a Rússia em vários anos consecutivos; processou centenas de milhares de cidadãos por "insulto ao presidente", crime que existe no código penal turco com toda a seriedade de uma lei medieval; conduziu operações militares no norte da Síria e no Iraque que deixaram rastros de sangue curdo documentados por organizações humanitárias que ninguém na grande mídia ocidental acusa de parcialidade pró-Israel. Depois do golpe de 2016, Erdogan expurgou mais de 150 mil pessoas das forças armadas, do judiciário e do funcionalismo público em meses, velocidade que nenhum processo legal democrático jamais alcançaria sem que algo podre estivesse acontecendo. Tudo isso é público, verificável e sistematicamente ignorado quando Ancara decide que chegou a hora de dar uma aula de ética ao mundo.

A comparação com Hitler merece atenção não pelo que revela sobre Netanyahu, mas pelo que revela sobre a função retórica do nome. Hitler virou um coringa semântico da política contemporânea: quem o usa contra um adversário dispensa qualquer argumentação subsequente, porque o simples acionamento do nome produz horror reflexo no ouvinte médio. É exatamente por isso que o recurso é intelectualmente covarde. Quando um estadista compara outro a Hitler, ele não está fazendo análise histórica, não está traçando paralelos rigorosos entre estruturas de poder e ideologia extermínio, está simplesmente tentando encerrar o debate antes que ele comece. O argumento que não aguenta comparação explícita se esconde atrás do maior monstro disponível no catálogo. A Turquia não apresentou silogismo algum; apresentou um palavrão histórico e esperou que o mundo aplaudisse.

Sobre a substância da acusação, que Netanyahu sabota negociações de paz, há algo mais sério a considerar do que a fonte contaminada que a formula. Guerras não terminam porque os líderes querem paz; terminam quando o custo de continuar supera o custo de parar. Quem financia cada lado, quem fornece armas, quem tem interesse econômico e geopolítico na perpetuação do conflito, essas são as perguntas que nenhum comunicado oficial responde. A Turquia vende drones Bayraktar para múltiplos combatentes em múltiplos teatros de guerra ao redor do mundo. Ancara não é exatamente o observador neutro e pacifista que a nota oficial tenta construir. O negócio da paz é muito menos lucrativo do que o negócio da guerra, e governos que vivem de ambos alternadamente têm credenciais morais para a negociação aproximadamente equivalentes às do cambista que briga com o agiota pelo mesmo cliente.

O que o episódio evidencia, mais do que qualquer posição sobre Gaza ou sobre Netanyahu, é a completa falência da linguagem diplomática como instrumento de verdade. Quando uma nota oficial de governo recorre ao vocabulário de chocante da internet adolescente, comparando líderes em exercício ao maior assassino em massa do século XX sem apresentar um único critério histórico que sustente a analogia, o que se está fazendo não é diplomacia: é política interna embalada em papel timbrado. Erdogan fala para sua base, que é islâmica, que é sensível à causa palestina, que vota. Netanyahu faz o mesmo do outro lado. E entre os dois, os mortos continuam morrendo sem que nenhuma nota, nenhum comunicado e nenhuma comparação histórica ultrajante altere uma vírgula da realidade no campo.

Aristóteles ensinou que o sinal mais seguro de um argumento fraco é o apelo à emoção no lugar onde deveria estar a prova. A Turquia não apresentou prova de que Netanyahu sabota negociações; apresentou uma comparação que funciona como bomba emocional de fragmentação, espalhando calor sem produzir luz. O homem que assina uma nota dessas sabe que não será cobrado pela precisão histórica. Sabe que o mundo tem memória curta e indignação fácil. Sabe que "Hitler" rende manchete e que manchete rende capital político. O resto, a verdade, a lógica, os mortos reais, fica para quem tem estômago para encarar o que a retórica não consegue esconder.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.