O TwentyFour Income Fund realizou sua assembleia geral e, como quem cumpre agenda de cartório, aprovou todas as resoluções que a administração colocou na mesa. Nenhuma resistência, nenhum voto contrário digno de nota, nenhum acionista incomodado o suficiente para levantar a mão e dizer que o rei talvez esteja sem roupa. Só palma. E quem acompanha esse tipo de coreografia sabe que unanimidade em finanças raramente é sinal de saúde, é sinal de que ninguém está prestando atenção ou de que quem prestaria já foi devidamente domesticado pelo conforto do dividendo mensal.

O fundo vive de comprar ABS, aqueles títulos lastreados em ativos que ganharam fama justamente por terem detonado meio sistema financeiro global há menos de duas décadas. A lógica do negócio é elegante no papel: pegar dinheiro do investidor de varejo britânico, empacotar em veículo listado, distribuir yield generoso e cobrar taxa de administração pelo esforço de existir. Enquanto o Banco da Inglaterra manteve juros no chão por uma década, esse tipo de estrutura floresceu como cogumelo depois da chuva, porque qualquer coisa que pagasse mais que zero virava atrativo irrecusável para aposentado sedento por renda.

A pergunta que nenhum cotista fez na assembleia é a única que importa: o que sustenta o retorno quando o crédito ao consumidor europeu começar a azedar de verdade? Porque é disso que o fundo se alimenta, de fluxos de pagamento de gente comum que financiou carro, casa e cartão numa economia que passou anos vivendo de dinheiro barato fabricado por burocrata de terno. Cada ponto de yield anunciado no prospecto tem, do outro lado, uma família endividada em algum subúrbio de Manchester ou de Roterdã. Quando a impressora desacelera e o custo do dinheiro sobe, essa cadeia não quebra devagar, quebra de uma vez.

Assembleia sem oposição é o retrato perfeito do investidor moderno, aquele que delegou tudo, não lê relatório, não questiona política de risco, não abre o balanço, e ainda assim se acha sofisticado por marcar um X no aplicativo do banco. É o cidadão que reclama do Estado paternalista de manhã e à tarde entrega o próprio patrimônio para um gestor que ele nunca viu, confiando que o adulto da sala vai cuidar de tudo. A tutela terceirizada tem o mesmo desfecho da tutela estatal: o dia em que o resultado vem, e o titular do dinheiro descobre que era ele o produto o tempo todo.

Há um cheiro conhecido nisso, o mesmo cheiro que precedeu tantos episódios em que veículos financeiros pareciam máquinas perpétuas até deixarem de parecer. Ninguém está dizendo que o TwentyFour vai virar pó amanhã, o ponto é outro, é o hábito coletivo de tratar produto financeiro complexo como poupança turbinada, de aplaudir gestão sem entender o que ela faz, de aprovar resolução sem ler resolução. A civilização do crédito farto criou uma geração inteira de rentistas por acidente, que acham que rendimento cai do céu e se ofendem quando alguém lembra que céu, no mercado, é só o teto que ainda não desabou.

O que se vê é a manchete tranquilizadora sobre governança em ordem. O que não se vê é a fila de decisões automáticas que ninguém auditou, o risco embutido em portfólio que ninguém entende de verdade, e o dia em que a mesma assembleia unânime vai ser convocada para explicar por que a cota caiu vinte por cento numa semana. Aí, curiosamente, aparecem os dissidentes. Sempre depois. Sempre tarde.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.