A Uber acaba de demitir 23% do seu departamento de recursos humanos e recrutamento, e a notícia chega embrulhada naquela embalagem corporativa que tenta amaciar o golpe, menos de 1% do quadro total, como se o tamanho relativo do machucado anestesiasse a pancada. Pois aqui vai a tradução do comunicado para quem fala português, a empresa olhou para a planilha, viu uma área inteira dedicada a fazer reuniões sobre reuniões, e concluiu que pagar gente para escrever política de bem-estar não move um único motorista do ponto A ao ponto B. A diferença entre uma empresa privada e um ministério é exatamente esta, na empresa privada, quando o departamento não produz, o departamento some.
Quem paga a conta do RH inflado? O cliente que aperta o botão no aplicativo, o motorista que entrega 25% da corrida, o acionista que tolera margem apertada porque acredita na história. Quem se beneficiava? Uma camada de profissionais cujo trabalho consistia, em boa medida, em produzir slides sobre cultura organizacional, organizar happy hours temáticos, redigir manifestos sobre pertencimento e administrar a burocracia da própria existência. É o velho fenômeno do pessoal que cresce até preencher o tempo disponível, e o orçamento disponível, e a paciência disponível, até que alguém com calculadora na mão pergunta para que diabos servia tudo aquilo.
O silogismo é constrangedoramente simples. Toda empresa existe para entregar valor ao cliente. Departamentos que não entregam valor ao cliente são custos, não investimentos. Logo, em tempos de aperto, departamentos que não entregam valor ao cliente são os primeiros a sentir a tesoura. Não há crueldade nisso, há aritmética. O que parece crueldade é apenas o adiamento da aritmética, prolongado por anos de dinheiro barato e juros artificialmente esmagados que permitiram a toda corporação americana inchar setores improdutivos como balão de festa infantil.
É curioso observar que a mesma imprensa que trata cada demissão privada como tragédia humanitária aplaude de pé quando o governo cria dez mil cargos para fiscalizar a fiscalização da fiscalização. No setor privado, o erro é punido, o desperdício é cortado, a ineficiência é varrida. No setor público, o erro vira justificativa para mais orçamento, o desperdício vira programa permanente, a ineficiência vira concurso. Por isso a Uber consegue demitir e o INSS não consegue nem informatizar fila de espera depois de trinta anos de promessas.
Há ainda o detalhe deliciosamente irônico de que o departamento demitido foi justamente o que passou a última década pregando para o resto da empresa sobre propósito, missão, valores e segurança psicológica. Quando a tesoura chegou, descobriu-se que segurança psicológica não paga aluguel de servidor em Amsterdã. O mercado tem essa virtude pedagógica brutal, ele não discute, ele decide, e a decisão dele é sempre a mesma, ou você produz algo que alguém quer pagar para ter, ou você produz currículo atualizado.
No fundo, o episódio é um pequeno milagre cotidiano que passa despercebido. Uma empresa privada, sem precisar pedir licença ao Congresso, sem comissão parlamentar de inquérito, sem audiência pública, sem nota técnica do tribunal de contas, ajustou seus custos à sua realidade. Levou uma manhã. Nenhum cidadão foi obrigado a financiar o ajuste. Nenhum imposto subiu para cobrir a folha. Compare com qualquer reforma administrativa do Estado brasileiro, que se arrasta há quarenta anos sem conseguir demitir um único concursado que passe o expediente jogando paciência. A lição não está no corte, está no contraste.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.