A notícia é dessas que revela mais sobre o analista do que sobre a analisada. O UBS, casa suíça que gerencia trilhões e emprega batalhões de gente com diploma pendurado na parede, resolveu elevar o preço-alvo da Signet Jewelers, dona da Kay Jewelers e da Zales, porque a companhia está avançando na tal reestruturação. Traduzindo do economês para o português: fecharam lojas que davam prejuízo, cortaram custos que ninguém precisava, recompraram ações e passaram a tratar o próprio caixa com a seriedade que qualquer botequineiro trata o próprio. E o mercado, extasiado, redescobre o que os fenícios já sabiam antes de Cristo nascer.

Olha, há algo profundamente cômico nesse ritual. Uma empresa que vinha patinando por anos, entupida de inventário parado, contratos de aluguel em shoppings esvaziados pelo comércio eletrônico e uma estrutura de custos herdada da era em que se comprava aliança olhando vitrine no sábado à tarde, decide finalmente fazer o dever de casa. Vende ativos, encolhe operação, foca no que dá margem. E aí vem o analista de Zurique, com sua planilha em três monitores, e proclama que o papel merece cotação mais alta. Merece mesmo. Só que não precisava de nenhum modelo econométrico para chegar lá; bastava ter perguntado ao dono da padaria da esquina se empresa que gasta menos do que fatura vale mais ou menos que empresa que gasta mais do que fatura.

Aqui mora a lição que ninguém quer verbalizar em Davos. Toda vez que uma companhia é obrigada pelo mercado, pela concorrência real, pelo consumidor que votou com o cartão de crédito, a se reorganizar, o resultado aparece no balanço em semestres, não em décadas. Compare com qualquer estatal, qualquer setor protegido, qualquer indústria que vive de subsídio, incentivo fiscal, tarifa de importação alta ou barreira regulatória. Essas nunca reestruturam. Continuam gordas, ineficientes, tratando cliente como súdito, porque não existe a espada do prejuízo pairando sobre o pescoço do gestor. A Signet só está fazendo o que faz porque, se não fizesse, quebraria. E é essa ameaça, e apenas ela, que produz gestão decente em qualquer canto do planeta.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais clara. Quem ganha com a alta do preço-alvo? Os acionistas, evidentemente, muitos deles fundos de pensão que sustentam aposentadoria de gente comum. Quem perdeu no caminho? Os fornecedores marginais, os funcionários das lojas fechadas, os shoppings de segunda linha que perderam âncora. Doloroso? Sim. Necessário? Também. Porque a alternativa não era manter tudo como estava numa espécie de bondade eterna financiada por ninguém. A alternativa era falência completa, e aí o estrago seria vinte vezes maior. Toda vez que um governo se mete para impedir esse ajuste em nome da preservação do emprego, o que se preserva é o problema, adiado com juros compostos para uma geração seguinte pagar.

Repare também no detalhe delicioso. A recuperação da Signet acontece justamente enquanto o consumidor americano aperta o cinto, o cartão de crédito bate recordes de inadimplência e o Federal Reserve segura juros altos para tentar desmontar a bagunça inflacionária que ele próprio criou imprimindo dinheiro na pandemia. Ou seja, a companhia está prosperando apesar do ambiente macroeconômico hostil, não por causa dele. É a prova viva de que empresa boa sobrevive a governo ruim, mas empresa ruim não sobrevive nem a governo bom. Toda a mitologia keynesiana de que a demanda agregada, orquestrada pelo Estado benevolente, é que cria prosperidade, desaba diante de um simples estudo de caso setorial.

No fim, o UBS não descobriu a pólvora. Descobriu que o capitalismo funciona quando deixam ele funcionar. Que empresa disciplinada vale mais que empresa protegida. Que corte de custo é virtude, não crueldade. E que o único selo de qualidade confiável no mundo dos negócios é o teste diário do consumidor pagando do próprio bolso. Faltou combinar isso com metade dos ministérios de qualquer capital do mundo ocidental, que operam com a lógica inversa há décadas e ainda se espantam quando o resultado é déficit crônico. Aliança de ouro se vende porque alguém quer comprar; ministério se sustenta porque alguém é obrigado a pagar. A diferença cabe num anel.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.