O UBS meteu a tesoura no preço-alvo da Casey's General Stores alegando pressão nas margens de combustível, e o mercado tratou o recado com a solenidade de sempre, como se fosse um problema exótico de uma empresa específica. Não é. É o retrato de um setor inteiro que virou refém de uma equação em que o varejista fica com as sobras enquanto governos estaduais, federais e ambientais embolsam o grosso do que o motorista deixa na bomba. Casey's tem mais de dois mil e oitocentos pontos de venda espalhados pelo interior americano, e ainda assim precisa rezar para o spread do galão não afundar num trimestre qualquer. Isso deveria dizer alguma coisa sobre a natureza do negócio.
Quem nunca abriu a planilha de um posto imagina que combustível dá dinheiro. Combustível dá giro. O dinheiro está no salgadinho, no café, no cigarro, na loja de conveniência que existe encostada na bomba justamente porque a bomba sozinha não paga o aluguel. A margem líquida do galão de gasolina no varejo americano flutua entre centavos e mais centavos, e qualquer solavanco no preço do atacado, qualquer mudança na regulação de biocombustível, qualquer imposto novo sobre carbono transforma o trimestre da rede num samba do crioulo doido. O UBS não descobriu nada. Apenas colocou no relatório o que qualquer gerente de posto sabe há décadas.
E aqui vale seguir o dinheiro com paciência. Nos Estados Unidos, o motorista médio paga entre cinquenta e oitenta centavos de dólar por galão em impostos combinados, dependendo do estado. Isso é muito mais do que a margem bruta do varejista, muito mais do que o lucro da refinaria, muito mais do que os royalties do produtor de petróleo. O maior sócio silencioso de cada tanque abastecido nos Estados Unidos é o mesmo que reclama do preço da gasolina em discurso de campanha e depois aumenta a alíquota no orçamento seguinte. A Califórnia cobra impostos que fariam corar um ministro da fazenda tropical, e ainda assim é a Casey's que apanha na bolsa quando a margem aperta.
Existe uma ilusão persistente de que preço na bomba é ganância corporativa, e essa ilusão é útil para uma classe política que precisa de vilão para desviar a atenção do próprio bolso. Quando o petróleo sobe, o político acusa a petroleira. Quando a margem do posto sobe dois centavos, o político convoca CPI. Quando o imposto sobe vinte centavos, silêncio litúrgico. É a mesma cartilha em qualquer país que aprendeu a chamar confisco de política pública. A Casey's e suas concorrentes operam num setor onde o Estado é o principal beneficiário e o principal regulador, o que já deveria acender todos os alarmes de qualquer economista honesto.
O corte do UBS também expõe algo mais profundo sobre a fragilidade de negócios que vivem em cima de commodities reguladas. Uma empresa que precisa depender do humor da OPEP, da política energética do dia, do preço do etanol subsidiado, das exigências de mistura obrigatória e ainda das oscilações do câmbio, não é uma empresa de mercado livre, é uma sobrevivente num campo minado onde as minas foram plantadas por quem se apresenta como salvador. Cada trimestre bom da Casey's é uma vitória arrancada apesar do sistema, não graças a ele. E quando o analista de banco corta o preço-alvo, está admitindo, sem querer, que o problema não é a empresa, é o cenário construído em cima dela.
No fim, o consumidor americano paga a conta duas vezes: uma quando abastece, outra quando o varejista que dependia daquele giro precisa demitir, fechar unidade ou repassar o aperto para o preço do café da manhã. E a lição que ninguém quer aprender é que quanto mais o Estado se enfia no meio de uma cadeia produtiva, mais essa cadeia vira aposta de curto prazo, mais o investidor foge, mais o preço-alvo cai. O UBS não previu o futuro, apenas leu o presente com honestidade contábil. Quem devia estar preocupado com essa nota não é o acionista da Casey's, é o eleitor que ainda acredita que imposto sobre combustível é ferramenta ambiental e não simples arrecadação disfarçada de virtude.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.