Na madrugada deste sábado, enquanto os senhores da economia russa brindavam à própria importância no último dia do fórum de São Petersburgo, centenas de drones ucranianos cruzaram o céu em direção justamente àquela cidade, e a diversas outras regiões, num dos maiores ataques registrados desde que essa guerra começou a ser vendida ao mundo como "operação militar especial". O timing é de uma elegância quase literária. Não há roteirista mais cruel que a realidade quando ela decide rir dos poderosos. O palco montado para exibir a robustez do regime virou cenário para mostrar exatamente o oposto.

Convém que se faça a única pergunta que importa em qualquer guerra moderna, e que jamais aparece nos editoriais respeitáveis: quem está pagando essa conta e quem está embolsando o troco? Os drones ucranianos não nascem em horta. Cada um deles é financiado por contribuintes europeus e americanos que jamais foram consultados sobre o assunto, transferidos via pacotes de "ajuda" que enriquecem fabricantes de armas no Ocidente, lubrificam burocracias de Bruxelas e Washington, e mantêm vivo um conflito que serve admiravelmente bem a quem vende míssil, drone e narrativa. Do outro lado, o complexo industrial militar russo se sustenta no confisco direto da poupança do trabalhador russo, via inflação galopante e impostos sobre quem nem entende por que está mais pobre.

O fórum econômico de São Petersburgo é uma instituição cômica por natureza. Reúne oligarcas que fizeram fortuna privatizando, na década de noventa, o que era do povo, para hoje pregarem soberania nacional vestidos de Brioni. O mesmo Estado que lhes entregou as estatais a preço de banana é agora o garantidor de seus contratos, a polícia particular de seus interesses, e o mestre de cerimônias de suas autocelebrações. Quando um drone atravessa esse cenário, a aristocracia de cartório descobre, por alguns segundos, que o monopólio da violência que sustentava seus contratos não é tão monopolista assim. É um momento pedagógico raro.

Há uma lógica de ferro nesse arranjo que ninguém quer enunciar em voz alta. Toda guerra prolongada beneficia exatamente três grupos: quem fabrica armamento, quem administra subsídios, e quem controla a narrativa. Os mortos, esses não entram na contabilidade porque não votam nem compram anúncio. Os impostos cobrados em Berlim para sustentar a defesa de Kiev são propina disfarçada de solidariedade. Os rublos confiscados via inflação para alimentar o front russo são roubo disfarçado de patriotismo. As duas operações são moralmente idênticas, embora a imprensa séria jamais o admita, porque admitir custaria contratos publicitários e acessos a fontes.

O hábito de chamar essa carnificina de "defesa da democracia" ou de "operação militar especial" pertence à mesma categoria semântica daquele truque medieval em que o senhor feudal cobrava o imposto chamando-o de proteção. Mude a roupa, mantenha o esquema. As coisas, no entanto, continuam sendo o que são, independentemente do nome que lhes pendurem. Drone é drone, morto é morto, e a fatura, por mais que a maquiem com bandeiras coloridas e hashtags comoventes, sempre cai no colo de quem trabalha, produz e cala. Os senhores do fórum continuam brindando. Os senhores do Pentágono continuam vendendo. E o sujeito que paga o pão mais caro em Voronezh ou em Stuttgart segue sem entender por que ficou mais pobre desde 2022.

Há quem diga que torcer por um lado nessa guerra é dever moral. Eu prefiro torcer por quem fica em casa, cultiva sua horta, paga seus boletos e não manda filho nenhum morrer por causa que foi escrita em gabinete climatizado a dez mil quilômetros do front. O resto é teatro, e como em todo bom teatro, alguém sempre vende os ingressos por baixo do pano. Siga o dinheiro. Sempre dá no mesmo lugar.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.