Os números saíram e a notícia é que o inimigo invisível ganhou. Pesquisadores da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia confirmaram aquilo que qualquer enfermeira de UTI já sabia entre um plantão e outro: as superbactérias avançam, as infecções hospitalares disparam, os mortos se acumulam e a fatura, claro, segue rolando ladeira abaixo até o bolso de quem nunca pisou no hospital. Chamam isso de crise sanitária. O nome correto seria outro: o resultado previsível de um sistema que socializou o risco, estatizou o cuidado e privatizou, em silêncio, o lucro de quem fornece para esse mercado cativo.
Convém olhar a coisa pelo esqueleto. Se um ambiente concentra pacientes debilitados, antibióticos despejados sem critério e protocolos de higiene tratados como sugestão, então esse ambiente seleciona, por pura mecânica darwiniana, as cepas mais resistentes que a biologia consegue produzir. A premissa é boba, a conclusão é inevitável, e mesmo assim seguimos fingindo surpresa a cada novo relatório. O hospital público brasileiro virou exatamente isso: uma estufa de evolução acelerada, um laboratório involuntário onde a bactéria aprende mais rápido do que o gestor. E o gestor, convenhamos, aprende devagar porque não paga a conta do erro.
Aqui é onde a trilha do dinheiro começa a brilhar. Cada infecção hospitalar adquirida significa mais dias de internação, mais antibióticos de última geração, mais exames, mais insumos, mais leitos ocupados. Quem ganha com isso? A indústria farmacêutica que vende a molécula nova patenteada por um preço de joia rara. Os fornecedores credenciados que abastecem a rede pública por contratos que ninguém audita. As fundações estatais que administram hospitais sem prestar contas como empresa privada nenhuma poderia se dar ao luxo de não prestar. E, no topo da pirâmide, a casta burocrática que sobrevive vendendo a próxima campanha, o próximo programa, o próximo comitê de enfrentamento. Quanto pior a crise, maior o orçamento. Quanto maior o orçamento, mais firme a cadeira.
Note a engenhosidade do arranjo. O cidadão é obrigado, sob pena de execução fiscal, a financiar uma rede que o devolve para casa com uma bactéria que nenhum medicamento mata. Se reclama, ouve que o problema é falta de verba. Se pede alternativa, descobre que a mesma vigilância sanitária que falhou em fiscalizar o hospital é a que dificulta a abertura de qualquer concorrente sério. É o velho truque da loja única na cidade: o dono cobra o que quer, serve o que sobra, e ainda recebe palmas porque, afinal, sem ele ninguém comeria. Só que aqui o cardápio inclui klebsiella resistente a carbapenêmicos, e a sobremesa é o atestado de óbito.
O receituário oficial, previsivelmente, será mais do mesmo. Vão pedir mais recursos, mais cargos de coordenação, mais protocolos publicados em diário oficial. Falarão em uso racional de antibióticos como quem descobre a roda em 2026, ignorando que o próprio sistema empurra o médico para a prescrição defensiva, porque processar o Estado é difícil e processar o profissional é fácil. Criarão uma agência, um observatório, um selo. Cada nova sigla é um novo andar no edifício que precisamente produziu o problema. É como combater incêndio jogando lenha mais cara: muda o orçamento, não muda o fogo.
A pergunta honesta, aquela que ninguém em mesa de congresso da saúde quer ouvir, é simples. Por que a responsabilidade nunca encontra um nome, um CPF, um patrimônio penhorável? Quando uma padaria envenena três fregueses, fecha na semana seguinte e o dono responde com os bens. Quando um hospital público mata trezentos por infecção evitável, ninguém perde o emprego, ninguém devolve um centavo, e o secretário sobe de cargo. Enquanto essa assimetria existir, as superbactérias vão continuar fazendo o trabalho que a auditoria se recusa a fazer. Elas não leem relatório, não temem CPI, não respondem a coletiva. Apenas cobram, em vidas, a fatura que o contribuinte já pagou em imposto. Quem paga, sabemos. Quem recebe, também. Falta apenas coragem de dizer em voz alta.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.