Comece pelo absurdo. Existe um ministério, existem secretarias estaduais, existem fundações com sigla de quatro letras e orçamento de nove dígitos, todas supostamente dedicadas a salvar as borboletas, os polinizadores, a biodiversidade urbana e mais um punhado de substantivos abstratos que rendem dotação no orçamento. E aí, num vaso qualquer de apartamento de classe média, um arbusto rasteiro de flores roxas faz, sozinho, sem edital, sem chamada pública, sem comitê gestor, aquilo que toneladas de papel timbrado prometem fazer e não fazem. A planta floresce. As borboletas vêm. Fim do problema. Custo para o contribuinte: zero.
Repare na economia silenciosa do gesto. O sujeito compra a muda numa feira, gasta o preço de meia pizza, planta no vaso com terra comum, rega quando lembra, e em pouco tempo tem um pedaço de jardim funcionando como ecossistema em miniatura. Não houve audiência pública. Não houve estudo de impacto. Não houve assessor de imprensa anunciando a iniciativa em coletiva. Houve uma decisão privada, num espaço privado, com recursos privados, produzindo um bem que economistas chamariam de externalidade positiva, e que a vizinhança simplesmente chama de bonito. O mercado das varandas resolveu, em silêncio, aquilo que o palanque promete há quarenta anos.
Há uma lição antiga aqui, anterior aos algoritmos e às metas de sustentabilidade da ONU. Toda vez que o poder central se anuncia como salvador de algo, vale conferir o que esse algo fazia antes da salvação. As cidades europeias do século dezenove, sem ministério do meio ambiente, eram cercadas de hortas, pomares e jardins domésticos que sustentavam abelhas, pássaros e a mesa da casa. Quem destruiu isso não foi o capitalismo selvagem do panfleto, foi o zoneamento, foi a regulação do uso do solo, foi a burocracia que proibiu galinha no quintal e cobrou alvará para horta comunitária. A natureza recuou na mesma proporção em que o carimbo avançou.
Siga o dinheiro e o enredo fica nítido. Cada programa de revitalização verde tem fornecedor preferencial, consultoria contratada, ONG amiga recebendo repasse, secretário tirando foto com regador na mão. O arbusto no vaso não tem nada disso. Ele não emprega cunhado, não financia campanha, não rende viagem a Dubai para conferência climática. Por isso mesmo é incômodo. Provoca a suspeita de que o cidadão comum, deixado em paz com seu pedaço de chão, resolveria três quartos dos problemas que o Estado cobra caríssimo para não resolver. E essa suspeita, uma vez plantada, floresce mais rápido que qualquer flor roxa.
O conselho prático, então, é quase subversivo na sua simplicidade. Escolha a espécie rasteira, de porte compacto, que floresce o ano quase inteiro e atrai borboletas como vitrine atrai criança. Plante. Regue. Observe. Você terá feito, no espaço de um vaso, mais pela biodiversidade urbana do que dez planos plurianuais juntos. E terá feito de graça, o que para um burocrata é quase uma ofensa pessoal, porque demonstra, sem precisar discursar, que a vida segue muito bem quando ninguém a está administrando de cima. O rei está nu, e a borboleta pousou no arbusto do vizinho.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.