A manchete é irresistível, confessemos. Quinhentos metros abaixo da superfície, nas águas de Okinawa, uma câmera submarina registrou uma criatura da família Pennatuloidea com a silhueta caprichosamente torcida em formato de ponto de interrogação. Os cientistas se intrigaram, os jornais traduziram a intriga em clique, e o público, generoso, ofereceu a sua cota diária de assombro. O bicho é real, a foto é autêntica, a curiosidade é legítima. Até aqui, nenhum crime. O crime começa quando a gente levanta os olhos do mar e olha para a planilha.

Toda expedição oceanográfica de águas profundas custa uma pequena fortuna. Navio equipado, tripulação especializada, submersível autônomo, sonares, câmeras de alta resolução capazes de operar sob pressão de cinquenta atmosferas, combustível, seguros, consórcios universitários, bolsistas, pós doutorandos, assessoria de imprensa. Quem paga? Não é a rifa da paróquia. É, invariavelmente, uma combinação de agências estatais de fomento, fundos públicos travestidos de fundações privadas e cooperações internacionais lastreadas por contribuintes que jamais ouviram falar de Pennatuloidea e que, se perguntados, talvez tivessem outras prioridades orçamentárias, como o asfalto do bairro ou o remédio do avô.

Note a mecânica, sempre a mesma. Primeiro, produz se o achado espetacular, a foto bonita, a metáfora publicável. Depois, a reportagem encantada, a manchete global, o viral nas redes. Em seguida, quase invisível, vem o pedido de renovação do edital, a justificativa para o próximo aporte, a pressão moral sobre qualquer parlamentar que ouse cortar verbas de ciência, porque cortar verba de ciência, convenhamos, é coisa de bárbaro. O ciclo é virtuoso para quem está dentro e compulsório para quem está fora. A plateia aplaude o espetáculo sem saber que comprou o ingresso duas vezes, uma pelo imposto, outra pela inflação que o imposto não cobriu.

Ninguém, absolutamente ninguém, é contra conhecer o mar. A questão é outra, e bem mais antiga: por que a curiosidade humana precisa obrigatoriamente passar pelo cofre alheio? Os grandes navegadores dos séculos passados levantaram capital de comerciantes, de companhias mercantes, de mecenas que arriscavam o próprio patrimônio esperando retorno, glória ou danação. Erravam, quebravam, tentavam de novo. Hoje, o oceanógrafo erra e o erro é absorvido pela folha de pagamento pública, porque o risco foi socializado antes mesmo de a âncora descer. É a velha alquimia moderna, transformar aventura em sinecura.

Existe, claro, o argumento nobre de que a ciência básica não tem aplicação imediata e por isso o mercado não financiaria. Argumento encantador, quase convincente, se não fosse contrariado por séculos de filantropia privada, fundações independentes, documentaristas autossustentáveis, editoras científicas que vivem de assinatura voluntária e bilionários excêntricos que pagam submarinos só pelo prazer da descoberta. O que o discurso oficial chama de falha de mercado costuma ser, na prática, preguiça de mercado criada pela presença subsidiada do Estado, que entra de pára quedas no setor, afunda o preço, expulsa o capital privado e depois alega que sem ele o setor morreria. É o incendiário que se candidata a bombeiro, cobrando a corrida.

Então sim, o bichinho em formato de interrogação é fofo, raro, cientificamente interessante e merece estudo. Mas a interrogação verdadeira não está nos quinhentos metros de profundidade; está na superfície, bem onde a gente não olha. Quem paga a conta da maravilha? Quem fatura na divulgação? E, sobretudo, por que a pergunta nunca é feita quando a foto é bonita o bastante para calar o contador? O fundo do mar tem suas curiosidades, concedo. O fundo do orçamento tem as suas, e são bem menos fotogênicas.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.