Bastaram poucas horas após os disparos para que a moldura estivesse pendurada na parede: o atirador é "um indivíduo doente", estava municiado como se fosse invadir um quartel, e o agente do Serviço Secreto que levou o tiro felizmente usava colete à prova de balas. Tudo amarradinho, tudo explicadinho, tudo com aquele cheirinho de comunicado que parece ter sido redigido antes do gatilho ser puxado. Quando a versão oficial chega mais rápido que a ambulância, o cidadão atento desconfia, porque investigação séria leva tempo, e diagnóstico psiquiátrico à distância é especialidade de charlatão.
Repare no roteiro, sempre o mesmo, repetido com a regularidade de novena de domingo. Aparece um sujeito solitário, perturbado, fora de qualquer rede política coerente, armado até os dentes por mero capricho biográfico. Atira contra alvo simbolicamente perfeito, no caso um evento com jornalistas onde estava o ex-presidente que virou presidente de novo. Erra ou quase acerta, conforme convém ao desfecho narrativo. E o desfecho narrativo, atenção aqui, é sempre o mesmo: precisamos de mais segurança, mais vigilância, mais controle de armas para o cidadão comum, mais orçamento para as agências, mais poder para quem já tem poder demais.
Quem paga essa conta? O contribuinte, evidentemente, que financia o Serviço Secreto, financia o FBI, financia o aparato federal inteiro e ainda é convidado a aplaudir quando essas mesmas estruturas pedem mais verba porque falharam em proteger o protegido. Quem recebe? As burocracias de segurança, que se alimentam de cada incidente como vampiro se alimenta de pescoço, e os fornecedores de equipamento, treinamento, software de vigilância, todo o complexo industrial que vive de medo terceirizado. Falha do sistema vira sempre desculpa para inflar o sistema. Médico que mata paciente recebendo bônus pelo enterro.
O detalhe do colete merece pausa. O agente foi atingido, mas estava protegido, e passa bem. Ótimo para o agente, ótimo para a família. Mas observe a coreografia da informação: vítima oficial existe, ferimento existe, drama existe, e ao mesmo tempo ninguém morre, ninguém atrapalha o desenrolar da história. É o tipo de incidente que rende manchete por três dias, justifica decreto na quarta, vira pretexto para projeto de lei na semana seguinte e some do noticiário antes que alguém pergunte o nome verdadeiro do atirador, o histórico dele, com quem conversava, quem pagou as armas, como entrou no perímetro.
Diga "indivíduo doente" e o caso está encerrado para metade da plateia, porque doença mental é a fralda descartável das explicações políticas, absorve qualquer sujeira e ninguém precisa lavar nada. Não há cúmplices, não há rede, não há motivação ideológica, não há falha operacional grave a apurar, não há cabeça a rolar no comando da segurança. Há apenas um maluco solto, infelizmente, fazer o quê, a vida é assim, vamos rezar e seguir adiante. Esse encerramento expresso é exatamente o que deveria fazer qualquer pessoa de juízo levantar a sobrancelha, porque verdade não tem pressa, mentira tem.
O que ficará desse episódio, daqui a um mês, é justamente o que interessa a quem fabrica esses momentos: a sensação difusa de que o mundo está perigoso, de que precisamos confiar mais nas instituições que falharam, de que abrir mão de mais um pedaço de liberdade é o preço razoável da segurança que nunca chega. Cada tiro mal explicado é tijolo na parede do curral. E o gado, distraído com a manchete do dia seguinte, nem percebe que a cerca está mais perto.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.