Na manhã de sete de maio, o USS Nimitz cruzou a barra da Guanabara como quem entra na sala dos fundos de casa alheia, sem tirar os sapatos. Trezentos e trinta e três metros de aço, reator nuclear ronronando nas entranhas, capacidade para noventa aeronaves de combate e cerca de cinco mil homens a bordo. Um pedaço soberano dos Estados Unidos boiando diante do Pão de Açúcar, e a imprensa brasileira vibrando feito menino que viu desfile de sete de setembro. A chamada Operação Southern Seas 2026 é o nome bonito que se dá ao óbvio: o império passeia o seu maior brinquedo de guerra pela varanda dos quintais que ainda considera seus.

Convém lembrar que porta-aviões não fazem turismo. Cada dia de operação de um monstro desses devora, em combustível para a escolta, pagamento de tripulação, manutenção e logística, mais dinheiro do que muita capital de estado nordestino arrecada num mês inteiro. A pergunta civilizada, a única que importa, é quem paga essa fatura. E a resposta, sempre a mesma, é o sujeito que acorda às cinco da manhã em Niterói para pegar barca, porque ele paga imposto lá quando consome qualquer coisa transformada em dólar, e paga aqui quando o governo brasileiro custeia o tapete vermelho, a segurança do porto, o protocolo, o jantar de gala e a obrigatória declaração de fraternidade entre as marinhas irmãs.

O arranjo é antigo e tem nome em todas as línguas do mundo: chama-se vassalagem voluntária. Roma mandava as legiões darem uma volta nas províncias justamente para que ninguém esquecesse de quem era a província. Mudaram os uniformes, mudaram os motores, a coreografia continua idêntica. O suserano aparece, exibe o músculo, recebe as honras, faz fotografia com o presidente local, e parte deixando atrás de si a sensação confortável de que a ordem está garantida. Garantida, claro, segundo os interesses de quem trouxe o navio, não segundo os interesses de quem ficou na praia acenando.

Há ainda o detalhe espinhoso do reator nuclear estacionado dentro de uma das baías mais densamente povoadas do hemisfério, sem que ninguém no governo brasileiro tenha sido convidado a inspecionar coisa nenhuma. Imagine se um navio iraniano com propulsão atômica pedisse para ancorar em San Diego para reabastecer mantimentos. A gargalhada seria audível da Lua. Mas quando o assimétrico chega ao porto pobre, vira honraria, vira vitrine, vira hashtag. A soberania, essa palavra que enche a boca dos discursos cívicos, evapora antes da primeira salva de canhão protocolar.

O verdadeiro escândalo, no entanto, não está no navio. O navio é apenas a manifestação física daquilo que já estava decidido em escritórios climatizados muito antes de a quilha cortar a água. O escândalo está no entusiasmo provinciano de uma classe política que confunde foto com diplomacia e gentileza com amizade. Estados não têm amigos, têm interesses, e o interesse de quem manda noventa caças passear no quintal alheio nunca foi e nunca será trazer flores. É marcar território, lembrar a hierarquia, e cobrar, na hora certa, o pagamento de uma cortesia que ninguém pediu mas todos vão custear.

No fim das contas, sobra a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta deste tipo de espetáculo. Quem paga essa visita, em combustível, em protocolo, em concessões silenciosas que serão cobradas em votação na ONU, em alinhamento comercial, em compra futura de equipamento militar de segunda mão a preço de primeira? E quem recebe, em prestígio doméstico, em mensagem geopolítica, em reafirmação de que o Atlântico Sul continua sendo, na prática, um lago sob tutela alheia? Responda essas duas perguntas com honestidade e o desfile naval deixa de ser celebração para virar aquilo que sempre foi: uma cobrança travestida de cortesia.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.