O ministro do Supremo subiu à tribuna do microfone aberto, cochichou que o pré-candidato Romeu Zema seria homossexual, e depois, diante do rebuliço, pediu desculpas com aquela cara de quem tropeçou no próprio tapete. O que se seguiu foi o momento mais saboroso da semana: uma nota da comunidade do X, aquela instituição paralela que a elite togada ainda não conseguiu domesticar, lembrou ao distinto togado que foi o próprio tribunal dele, em 2019, que equiparou homofobia a racismo, com pena de até cinco anos de reclusão. O algoz virou réu do seu próprio código. A guilhotina que ele afiou para os outros agora cheira o próprio pescoço.
Há uma simetria cômica na cena que só a história reserva aos arrogantes. O sujeito legisla pela boca, inventa crime por decreto da toga, expande o tipo penal para além do texto que o Congresso aprovou, e depois, anos mais tarde, usa a mesma palavra que transformou em delito para atacar um adversário político. Se fosse um cidadão comum postando aquilo num grupo de WhatsApp, já teria sido intimado, investigado, processado. Como é ministro, pede desculpas e segue a vida. A lei, afinal, é para os inimigos; para os amigos, a interpretação; para si mesmo, a indulgência plenária.
Esse é o coração podre do arranjo. Quando um tribunal se arroga o poder de criar crimes sem lei formal, ele não está combatendo preconceito, está concentrando poder. E poder concentrado tem uma propriedade física curiosa: vaza para os bolsos certos. Quem ganhou com a criminalização por analogia não foi a comunidade protegida, que continua apanhando na rua do mesmo jeito; ganharam os advogados das grandes consultorias de compliance, as ONGs conveniadas que agora recebem verba para treinar empresas, os escritórios que cobram caro para instruir executivos sobre o que podem ou não dizer. Todo decreto moral tem um CNPJ beneficiário. Basta seguir a linha do dinheiro até o balcão do banco.
E o detalhe que ninguém da imprensa oficial sublinha: o ataque foi contra o único pré-candidato que ousa falar em cortar privilégios de magistrados, reduzir supersalários, enxugar a máquina que sustenta o próprio ofendido. A ofensa não foi gratuita, foi política, e a escolha da arma não foi inocente. Usar a palavra que se transformou em crime é a maneira elegante do senhorio recordar ao inquilino que conhece o código de posturas. É bullying institucional vestido de lapso, e o lapso é sempre na direção conveniente.
O mais educativo da história, contudo, está no espelho partido. Durante décadas, convenceram o brasileiro de que aquela casa de mármore era o templo sereno da razão, habitado por sacerdotes que pairavam sobre as paixões vulgares. Bastou uma nota anônima de contexto, escrita por qualquer plebeu de teclado, para expor que os sacerdotes cometem justamente o pecado que excomungam. Nenhuma catedral sobrevive quando os fiéis descobrem que o padre dorme com a mulher do vizinho e prega o décimo mandamento no domingo. A autoridade moral, uma vez perdida, não volta por decreto.
Resta saber quem paga a conta. Paga o contribuinte, que sustenta o salário do togado, a aposentadoria integral que virá, os penduricalhos que se multiplicam, a estrutura de assessores, motoristas, seguranças, e ainda financia, por tabela, a máquina de ONGs e advocacias que lucra com cada nova categoria protegida. Recebe a casta. Sempre a casta. A piada de mau gosto foi só o verniz trincando numa mobília que já estava carcomida por dentro. O rei continua pelado, agora pedindo desculpas por ter comentado o traje alheio.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.