A Unaids, braço das Nações Unidas dedicado ao combate à Aids, resolveu que a melhor forma de convencer jovens brasileiros a usar preservativo é produzir funk e distribuir no Spotify. Leia de novo, devagar, porque a frase é real. Uma agência internacional, financiada por repasses de governos que por sua vez se financiam com o suor alheio, decidiu entrar no mercado fonográfico. O Ministério da Saúde embarca na iniciativa citando a alta de infecções entre jovens como justificativa. E pronto: está montado o circo. O problema existe, logo qualquer gasto se justifica. Essa é a lógica que transforma burocratas em produtores musicais e impostos em batidas de funk.

Vamos seguir o dinheiro, que é onde a conversa fica interessante. A Unaids não tira recursos do nada. Cada centavo que essa agência gasta vem de contribuições de países-membros, e o Brasil é um dos que mais pagam proporcionalmente na América Latina. Esses recursos passam por camadas de burocracia, consultorias, agências de publicidade, produtoras de conteúdo, estúdios de gravação, até chegar ao produto final: uma faixa de funk no Spotify que talvez, quem sabe, com sorte, faça um jovem de dezoito anos lembrar de usar camisinha antes de ir para o baile. A cadeia de intermediários é longa, os custos administrativos são generosos, e o resultado mensurável é, sendo gentil, nebuloso. Mas cada elo dessa corrente emprega alguém, paga salários, justifica cargos. A campanha existe menos para proteger jovens e mais para alimentar o ecossistema que vive de "conscientizar".

O que ninguém pergunta, porque perguntar é indelicado, é o seguinte: se a prevenção ao HIV fosse realmente a prioridade, por que o mesmo Ministério da Saúde não consegue manter postos com estoque regular de preservativos? Por que a distribuição gratuita de camisinhas, que custa centavos por unidade, sofre desabastecimento crônico em UBS de periferia enquanto sobra verba para produção cultural? A resposta é simples e desconfortável. Distribuir camisinha em posto de saúde não gera release para imprensa, não viraliza, não rende entrevista em portal, não movimenta agência de publicidade. Funk no Spotify, sim. A política pública moderna não se mede pelo resultado, mas pela repercussão. O jovem que contrai HIV na periferia sem acesso a preservativo é uma estatística. A campanha no Spotify é um case de sucesso em congresso de saúde pública.

Há algo de profundamente obsceno em transformar uma questão de saúde em peça publicitária. O Estado, que cobra impostos sob a promessa de cuidar da saúde da população, terceiriza a prevenção para uma agência internacional que terceiriza para uma agência de publicidade que terceiriza para um estúdio que produz funk. Em cada etapa, o dinheiro encolhe e a burocracia engorda. No final da linha, o jovem recebe uma música. Não um preservativo, não um teste rápido, não uma consulta médica. Uma música. E se ele não usar Spotify? Se não ouvir funk? Se morar numa cidade sem sinal de internet decente? Azar. A campanha não foi feita para ele. Foi feita para quem aprova o orçamento ver um relatório bonito.

A alta de infecções por HIV entre jovens é um dado real e grave. Mas a resposta do aparato estatal a esse dado revela mais sobre o aparato do que sobre o problema. Quando o diagnóstico é sério e a solução é uma playlist, o que se tem não é política de saúde, é marketing institucional. O funk no Spotify não vai reduzir infecções. Vai gerar métricas de engajamento, vai render matéria em portal, vai justificar a renovação do convênio no ano seguinte. E quando os números de infecção continuarem subindo, como continuarão, a solução será a mesma de sempre: mais verba, mais campanha, mais agência, mais consultoria. O ciclo se alimenta da própria ineficácia. Quem paga é quem sempre paga, o contribuinte que não pediu funk nenhum. Quem recebe é quem sempre recebe, o ecossistema burocrático que transformou a doença alheia em fonte de renda própria.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.