O comunicado vem embrulhado em papel celofane verde, com fita de juta e um laço de boa consciência: a Unesco anuncia, com a solenidade de quem descobriu o fogo, que os sítios sob seu chapéu protegem mais de treze milhões de quilômetros quadrados do planeta. Para situar o leitor que ainda tem noção de geografia, isso é maior que o Canadá inteiro, é quase uma vez e meia o Brasil. E a pergunta que ninguém da imprensa oficial faz, porque seria deselegante interromper o coquetel de autocelebração, é a mais simples de todas: de quem era essa terra antes, de quem é agora, e quem assina os cheques para que continue assim?

O truque retórico é antiquíssimo e funciona desde o tempo em que reis caçavam veados em florestas que decretaram suas. Você pega uma porção colossal do território de soberanias diversas, pinta de verde, chama de patrimônio da humanidade, e a partir dali quem manda na área não é mais o camponês, não é mais o município, não é mais sequer o governo nacional, é uma burocracia internacional que ninguém elegeu, que ninguém pode demitir, e cujo orçamento sai do bolso de contribuintes que nunca pisarão naqueles sítios. A humanidade, esse coletivo abstrato e conveniente, vira sócia majoritária por decreto. Os sócios humanos de carne e osso, com escritura na mão, viram inquilinos.

Siga o cheque e a fumaça desaparece. Quem mantém a Unesco em pé são as cotas pagas pelos Estados-membros, ou seja, imposto arrancado de gente que trabalha doze horas por dia para pagar diretor de departamento em Paris que voa de classe executiva para discutir biodiversidade. Quem se beneficia das demarcações são as ONGs satélites que recebem verba para "monitorar", as consultorias que vendem relatórios de impacto, os funcionários internacionais com salário em moeda forte e imunidade diplomática, e a indústria do turismo certificado que cobra ingresso para o que antes era de graça. Quem paga a conta são os ribeirinhos que não podem mais pescar, os agricultores que não podem mais plantar, os pequenos proprietários que viram suas terras congeladas por uma canetada lavrada do outro lado do Atlântico.

Há uma lógica simples que dispensa diploma para ser entendida. Se uma instituição protege algo, ela detém poder sobre esse algo. Se o poder é exercido sem prestação de contas a quem é afetado, então não estamos diante de proteção, estamos diante de tutela. E tutela imposta sem consentimento tem nome próprio nos manuais de história, e o nome não é bonito. A diferença entre o colonizador de quinhentos anos atrás e o burocrata ambiental contemporâneo está no figurino: aquele usava capacete metálico e cruz no peito, este usa terno bege e crachá com lanyard. A função é idêntica, plantar a bandeira em terra alheia e cobrar foro pela permanência.

O detalhe genial da operação é a blindagem moral. Como contestar quem diz que está salvando o planeta? O cidadão que ousa perguntar quanto custa, quem fiscaliza, quem audita, é imediatamente acusado de querer derrubar a Amazônia com motosserra entre os dentes. A virtude proclamada serve de escudo contra qualquer escrutínio, exatamente como a fé proclamada serviu para que tribunais eclesiásticos arrematassem propriedades de hereges convenientes durante séculos. Trocou-se o latim pelo inglês de relatório, trocou-se o incenso pelo selo de certificação, mas o mecanismo de transferência de patrimônio sob pretexto sagrado continua oleadíssimo.

Treze milhões de quilômetros quadrados não se administram sozinhos, e quem administra não trabalha de graça. Por trás de cada hectare pintado de verde no mapa há um contracheque, uma diária, uma passagem aérea, um contrato de consultoria, um seminário em cidade litorânea agradável. O meio ambiente agradece, certamente, mas quem agradece com mais entusiasmo são os que descobriram que dá para ser latifundiário sem nunca ter comprado um palmo de terra. Basta convencer o mundo de que a terra pertence a todos, e logo em seguida explicar, com voz mansa, que todos significa eles.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.