A história é velha como o mercantilismo, mas a roupagem ainda engana muita gente. A Unilever, dona de Omo, Comfort e Cif, protocolou duas denúncias contra a Ypê na Secretaria Nacional do Consumidor e na Anvisa entre outubro de 2025 e março de 2026. Meses depois, num passe de mágica que de mágico não tem nada, a agência sanitária suspende produtos da concorrente nacional. O cidadão médio, treinado para acreditar que o regulador é o pastor zeloso do rebanho consumidor, engole a notícia como se fosse zelo técnico. Quem leu a letra miúda viu outra coisa: viu um competidor estrangeiro usando o balcão da burocracia federal como arma comercial contra um competidor brasileiro.

A pergunta que ninguém faz na televisão é a única que importa. Quem paga e quem recebe? O consumidor paga, sempre paga, porque tira do mercado uma marca que disputava preço, e isso significa prateleira mais cara amanhã. A Ypê paga em reputação, em vendas perdidas, em advogado, em logística reversa, em capital de giro queimado. A Anvisa recebe poder, que é a moeda que servidor de carreira mais ambiciona, porque cada suspensão é um lembrete público de que ela existe e morde. E a Unilever recebe market share de graça, embrulhado para presente pelo Estado brasileiro, com fitinha verde e amarela.

Chamam isso de defesa do consumidor. Eu chamo pelo nome técnico que os manuais de economia política usavam quando ainda havia coragem de chamar as coisas pelo nome: captura regulatória. A teoria é simples e implacável. Toda agência criada para fiscalizar um setor termina, mais cedo ou mais tarde, fiscalizando em benefício de quem tem fôlego para frequentar os corredores, contratar ex diretores, financiar congressos técnicos e protocolar denúncias bem fundamentadas com batalhões de advogados. A empresa pequena não tem essa estrutura. A média também não. Só os colossos jogam esse jogo, e jogam para vencer. A agência não é juíza neutra; é o tabuleiro, e o tabuleiro pertence a quem comprou a cadeira mais próxima.

Note a inversão sublime. No século passado, quando duas marcas brigavam, a briga era no balcão do supermercado, na qualidade do produto, no preço da gôndola, na simpatia da propaganda. Hoje, a briga é no protocolo de Brasília. Não se conquista o consumidor; conquista se o regulador, e o consumidor é entregue de bandeja. É a versão moderna das cartas de monopólio que a Coroa britânica vendia a particulares no século dezessete, com a diferença de que agora se finge que há ciência no meio do processo. Há química, há laudo, há parecer. Há também, convenientemente, o concorrente que pagou o aviso prévio e está pronto para ocupar o vácuo.

O silogismo é desconfortável e por isso ninguém quer enxergar. Se a agência atua mediante denúncia de parte interessada, e se a parte interessada é o concorrente direto, e se o resultado da atuação beneficia diretamente quem denunciou, então a agência não está protegendo o consumidor: está terceirizando o cacetete para o capital que sabe usá lo. Não há saída lógica desse encadeamento. Pode se gostar do desfecho, pode se preferir a marca anglo holandesa ao sabão brasileiro, mas isso é gosto pessoal, não política pública. O que se vende como vigilância sanitária é, no fundo, um leilão silencioso de fatias de mercado, com o leiloeiro vestido de jaleco.

E aqui mora a piada amarga que dá título a tudo isso. O brasileiro foi convencido, a custo de décadas de propaganda institucional, de que sem o regulador estaria à mercê do empresário ganancioso. Olhe para o quadro de novo, sem o filtro: o empresário ganancioso é justamente quem usou o regulador, e o regulador, pago com imposto do mesmo cidadão que agora vai pagar mais caro pelo sabão em pó, foi a ferramenta do golpe. O rei está nu, mas continua desfilando, e a multidão aplaude porque foi ensinada que o tecido invisível é fino demais para olhos comuns. Quem paga continua sendo quem sempre pagou. Quem recebe continua sendo quem sempre soube onde bater.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.