A notícia chega embrulhada em celofane humanitário, mas o conteúdo é dinamite. A Universidade Nacional de Rosário acaba de receber luz verde da agência sanitária argentina para fabricar zidovudina em apresentação pediátrica, o xarope que mães soropositivas e crianças infectadas precisam para não morrer. O medicamento existe há mais de trinta anos, a patente caducou faz tempo, a fórmula está em qualquer manual de farmacologia, e ainda assim virou artigo de luxo intermitente na América Latina. Quando um produto barato e sem dono some das prateleiras, não é mistério de mercado, é geometria de cartel.

O laboratório universitário gastou quase vinte anos, repito, vinte anos, para conseguir colocar um xarope simples no mercado. Não estamos falando de imunoterapia experimental nem de engenharia genética de ponta. Estamos falando de zidovudina, droga descoberta nos anos sessenta, reaproveitada contra o HIV nos anos oitenta, fabricada hoje em galpões na Índia por centavos de dólar a dose. Se levou duas décadas para ser autorizada, alguém pisou no freio durante esse tempo todo, e esse alguém usa terno, não jaleco.

Siga o dinheiro e a fumaça aponta o incêndio. As grandes farmacêuticas não ganham dinheiro com remédios baratos e antigos, ganham com biológicos novos de seis dígitos a dose. Para que o portfólio caro respire, o portfólio barato precisa sumir, ficar escasso, virar gargalo logístico, ser substituído por versões patenteadas três vezes mais caras. Os ministérios da saúde, sempre dependentes do comprador de boa vontade, aceitam a coreografia. Crianças soropositivas, que não votam, não compram anúncio e não pagam jantar em Brasília ou Buenos Aires, são a variável de ajuste. Quando o remédio falta, a culpa é da burocracia, da pandemia, da guerra, da inflação, qualquer coisa menos do arranjo que enriquece quem está em cima da fila.

O detalhe que ninguém quer comentar é que a solução veio de um lugar improvável e ao mesmo tempo previsível. Uma universidade pública, com cientistas pagos por confisco tributário, resolveu um problema que o mercado regulado deliberadamente não queria resolver. Isso não é vitória do socialismo sanitário, como vão tentar vender nas redes oficiais. É o atestado de óbito do modelo em que o Estado cria a escassez, cobra o imposto, repassa o dinheiro à farmacêutica amiga, e depois precisa de outro braço estatal para consertar o estrago que o primeiro braço fabricou. O cidadão paga a conta três vezes, e ainda agradece comovido.

Que ninguém se iluda com o final feliz. O xarope vai sair, a foto será publicada, ministros vão posar ao lado de frascos, e o problema voltará em outra forma, em outro remédio, em outra cidade. Porque o desenho permanece intacto, a regulação que protege o monopolista continua de pé, a agência sanitária seguirá funcionando como porteiro do clube, e o próximo medicamento essencial vai demorar outros vinte anos para furar o cerco. A criança que precisa do remédio hoje não tem vinte anos de espera, tem semanas. E é por isso que o tema é grave, não comovente. Comover é fácil, basta uma legenda bonita. Desmontar o arranjo dá trabalho, e por isso quase ninguém faz.

Resta a pergunta que abre e fecha tudo. Quem paga? O contribuinte argentino, duas vezes, pelo imposto que financia a universidade e pelo imposto que financia o medicamento caro que ela agora torna desnecessário. Quem recebe? Por décadas, o cartel farmacêutico e seus despachantes de gravata nos ministérios. A partir de agora, com sorte e por um instante, as crianças. Que aproveitem enquanto dura, porque o sistema já está mexendo as peças para que dure pouco.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.