Uma revisão publicada na Frontiers in Psychology, assinada por pesquisadores da Universidade de Tecnologia de Dalian, veio dizer, com toda a pompa do método científico, aquilo que qualquer velho samurai sabia antes de existir ressonância magnética: bater, apanhar, suar e decorar sequência de movimento preserva o miolo do idoso. Tai chi, kung fu, caratê, judô, a coreografia milenar do corpo disciplinado age como escudo contra o declínio cognitivo, melhora memória, atenção, equilíbrio e ainda atrasa a degeneração neuronal. Em bom português, faz o cérebro do velhinho funcionar melhor do que o do jovem que passa oito horas rolando o dedão na tela.

A pergunta que ninguém faz, e que portanto cabe a esta coluna fazer, é a seguinte: se o remédio é tão eficaz, tão barato e tão antigo, por que ele não está na cartilha oficial do Ministério da Saúde, por que não há campanha publicitária milionária, por que o pediatra do SUS não receita uma academia de kung fu junto com a vacina anual da gripe? A resposta é constrangedoramente simples para quem já entendeu como o circo funciona. Não há lobby de quimono. Não existe representante comercial vendendo faixa preta para diretor de hospital. Ninguém ganha comissão sobre o número de chutes giratórios prescritos por trimestre.

Siga o dinheiro e a fumaça se dissipa. A indústria farmacêutica global movimenta mais de um trilhão e meio de dólares por ano, e uma fatia gorda dessa torta vem justamente da geriatria, dos coquetéis de antidepressivo, ansiolítico, anticolinesterásico, antipsicótico e da longa coleção de tarjas pretas que transformam o idoso brasileiro num zumbi sedado, dócil, lucrativo. Cada vovó que troca o rivotril pelo tai chi na praça é prejuízo no balanço trimestral de alguém em Basileia, em Nova Jersey, em São Paulo. O Estado, sempre solícito ao capital amigo, financia o consumo via SUS, libera o reembolso via planos regulados, regula a propaganda para favorecer o registrado e, por tabela, sufoca o que é gratuito, ancestral e não rende imposto sobre faturamento.

Há ainda a dimensão cultural, e aqui o assunto fica delicado para os ouvidos progressistas. A arte marcial, qualquer uma delas, é hierarquia pura. O mestre manda, o aluno obedece, a faixa branca apanha calada, o iniciante varre o tatame, o tempo é medido em décadas, não em curtidas. Tudo aquilo que a pedagogia contemporânea aboliu em nome do conforto emocional e da horizontalidade infantilizante está preservado, intacto, na sala empoeirada do dojô do bairro. Não por acaso, é exatamente lá, no ambiente que o jargão oficial chamaria de tóxico, autoritário e desigual, que o cérebro do velho se regenera. As coisas são o que são, não o que o boletim do CRAS gostaria que fossem.

Pense por um instante na ironia da cena. Um continente inteiro, o europeu, gasta fortunas em pesquisa de neuroproteção, financia centros bilionários de estudo do Alzheimer, subsidia laboratórios que prometem a pílula mágica para 2040, e a conclusão de uma universidade de província chinesa é que basta praticar, três vezes por semana, o que os monges do monte Song faziam no século sexto. Roma também morreu cercada de médicos caros enquanto plebeu saudável arava terra sem prescrição. Civilização decadente sempre confunde sofisticação com complicação, e complicação com fatura.

A lição prática é desagradável para os burocratas e libertadora para o resto. O cuidado com o próprio corpo, com o próprio cérebro, com a própria velhice, não cabe em formulário, não se delega a guichê, não se resolve em consulta de quinze minutos. É responsabilidade individual, intransferível, e por isso mesmo é a coisa mais subversiva que um idoso pode fazer hoje: largar a fila da farmácia, calçar o kimono e ir bater num saco de areia. Cada gota de suor é um voto contra o paternalismo que o quer dependente, medicado e em silêncio. Quem paga a conta da decadência cognitiva induzida pela tarja preta é a família. Quem recebe é o de sempre. E quem se cura, sozinho, no tatame, é o último homem livre da rua.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.