A cena é quase cômica na sua solenidade. Executivos da Unum, uma das maiores seguradoras de vida e invalidez dos Estados Unidos, sobem ao palco da conferência de seguros do KBW em 2026 para anunciar que vão crescer, reduzir riscos e precificar melhor seus produtos. Traduzindo do corporativês para o português: prometeram fazer aquilo que qualquer seguradora deveria fazer todos os dias desde que o primeiro mercador de Veneza inventou o contrato marítimo. O mercado responde com entusiasmo, os analistas escrevem relatórios elogiosos, e ninguém pergunta o óbvio: por que precisa haver uma conferência anual para uma empresa jurar que vai fazer o básico do seu ofício?
Quer dizer, uma seguradora que precisa reafirmar publicamente que vai precificar risco corretamente está confessando, sem perceber, que houve um período em que não estava fazendo isso. E aqui mora a pergunta interessante que ninguém no palco quis fazer. O que aconteceu com a precificação de risco nos últimos anos que agora exige penitência coletiva do setor inteiro? A resposta atravessa o tapete vermelho e vai direto ao ponto que ninguém quer tocar: quando o Banco Central mantém juros artificialmente baixos por uma década, distorce todo cálculo atuarial do planeta. Seguradoras vivem de investir prêmios recebidos hoje para pagar sinistros amanhã, e quando o dinheiro dos outros rende zero, o modelo de negócio inteiro precisa ser recalibrado no grito.
Olha, o mais revelador da conferência não é o que a Unum disse, mas o que o setor inteiro está sinalizando ao dizer as mesmas coisas ao mesmo tempo. Quando toda uma indústria descobre simultaneamente a necessidade de disciplina, é porque a farra acabou. Durante os anos de dinheiro barato, seguradoras aceitaram riscos que jamais aceitariam num mundo de juros normais, subprecificaram apólices para ganhar mercado e empurraram para o futuro a conta de premissas atuariais generosas demais. Agora que a curva de juros se comportou como sempre se comporta quando a impressora finalmente cansa, sobra reprecificar tudo, correr atrás do prejuízo e explicar aos acionistas que a festa custou caro.
E aqui entra o detalhe que a coluna de negócios da grande imprensa nunca aborda porque exigiria admitir uma heresia. O setor de seguros é um dos mais regulados do capitalismo ocidental, com exigências de capital, testes de estresse, supervisores federais e estaduais fiscalizando cada vírgula das reservas técnicas. Se toda essa muralha regulatória existe justamente para garantir que seguradoras precifiquem risco corretamente, como é que precisamos de uma conferência em 2026 para o setor anunciar que agora vai começar a fazer isso? A resposta desconfortável é que regulação nunca substituiu, não substitui e jamais substituirá o julgamento de mercado. Burocrata em Washington não sabe calcular risco de invalidez em Tulsa, e um regulamento de mil páginas não impede que incentivos distorcidos gerem comportamento distorcido.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. Quem paga quando uma seguradora quebra por má precificação? Em primeiro lugar, os segurados, que ficam a ver navios com apólices que valem menos que o papel em que foram impressas. Em segundo lugar, os fundos de garantia estaduais, que socializam o prejuízo entre as seguradoras sobreviventes, que por sua vez repassam o custo aos clientes seguintes via prêmios mais altos. E em último caso, quando o buraco é grande demais, o contribuinte, sempre o contribuinte, aparece com o dinheiro que não tem para salvar um sistema que jurou não precisar de socorro. É o velho arranjo do capitalismo de compadrio: lucro privado nos anos bons, prejuízo público nos anos ruins, e uma conferência anual para todos se congratularem pela responsabilidade recém-descoberta.
A boa notícia, se é que existe alguma, é que o mercado ainda funciona como corretivo quando o deixam funcionar. Investidores que ouviram a Unum e concluíram que a empresa está falando sério vão comprar suas ações; os que desconfiam do discurso vão vender. Esse mecanismo simples, milhões de pessoas apostando seu próprio dinheiro em seu próprio julgamento, agrega mais informação sobre o futuro do setor do que qualquer relatório de supervisor bancário jamais conseguirá produzir. Só que para o mecanismo funcionar de verdade, precisa haver a possibilidade real de quebrar. Uma seguradora que sabe que será salva se errar demais tem incentivo para errar demais. Enquanto o mercado seguir contando com o resgate implícito do Estado, o teatro das conferências vai continuar, com executivos jurando disciplina que o próprio arranjo institucional os desestimula a praticar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.